19 de julho de 2010

Não falarei sobre política

“Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo.” (Eça de Queiroz)

Dada a minha formação acadêmica e intelectual, posso dizer que eu entendo a necessidade da existência de um governo. Como economista formada, seja eu ortodoxa ou heterodoxa, devo admitir incontestável a necessidade do governo para agir, pelo menos, quando o mercado falha, podendo admitir uma participação maior. Se quiser me basear no meu conhecimento de Direito, devo afirmar que o Estado deve existir para garantir o direito de propriedade (mesmo que para tomá-lo para si e dividi-lo como bem entender) e para fornecer a base institucional (sólida ou não) sobre a qual se constrói a sociedade. Se eu quiser ser humanista, diria que deve existir um aparato estatal de assistência social, favorecendo os desamparados ou ainda fornecendo bases sociais que o interesse privado não provê. E para ser ambientalmente correta, diria que deve haver alguma estrutura organizada que vá além dos interesses publicitários de empresas privadas e seja mais poderoso que um punhado de ONG’s. Com relação ao cenário internacional, deve haver alguém que represente os interesses de uma nação.

Por outro lado, para defender o governo como está, eu diria que a construção de uma ciência da Administração Pública está a caminho e que há esforços no sentido de implementá-la. Posso argumentar que o funcionalismo público tem atraído pessoas mais capacitadas, pelos incentivos salariais dos concursos que abrem, fazendo dos certames cada vez mais concorridos. Eu poderia dizer que a Lei se aperfeiçoa nesse país a cada dia e ainda existem juízes, delegados e policiais não corrompidos.

Entretanto, minha experiência me diz que os novos funcionários públicos que entram nas salas do funcionalismo as encontram cheias de ranço. Chegam capacitados, pró-ativos e satisfeitos pelo ingresso, já que tiveram que deixar para trás outros tantos classificados. Vão para suas funções atualizados e estudados... mas logo se defrontam com a velha geração de funcionários públicos, agarrados em seus cargos, acostumados com a velha hierarquia, assentados na forma antiga de se fazer as coisas e pouco inclinados a novas ideias.

Mas a maior barreira à boa ordem é a forma com que se faz política nesse país. Em primeiro lugar, nenhum partido parece se importar com a bandeira que levanta: cada um deles é um apanhado de farinha, cujo saco mal recorda seu próprio rótulo. O importante mesmo é a “força” do partido, medida pela representatividade nacional. E para contrabalançar a moralizante Lei da Fidelidade Partidária, o fim da verticalização veio para deixar o cenário político ainda mais vexatório. “Democratas”, “socialistas”, “trabalhistas”, “ambientalistas” – apenas de nome, não se enganem – se unem e desunem sem saber nem mesmo porque carregam essa bandeira.

E os novos políticos têm duas opções: entrar no esquema ou desistir da política. “Calma!, meu caro, não é assim que se trabalha por aqui. Lobby é o lema. De que favor você precisa para defender meu interesse?” E na mão dos que aceitam a forma como há séculos vem sendo feitas as coisas, sem meta nem ideologia clara além da permanência no poder, é que se colocam responsabilidades e decisões do andamento de toda uma estrutura governamental. Os que persistem em fazer diferente: raros.

E enxergando como eu posso as coisas como elas são... que me importa quem ganha ou quem perde, se quem fica é um pouco do mesmo que já lá esteve? Por mais importante que eu considere a existência de um bom governo, a desmotivação com relação ao assunto é grande. A diferença entre a maioria dos políticos é o nível de QI e as inclinações pessoais a atender mais a este ou aquele interesse. Então, se eu pretendo acrescentar algo àquele que me lê, partirei para outros assuntos. Aliás, vou propor diversas vezes a melhoria de nós mesmos que não estamos no governo, para quem sabe um dia os representantes sejam o espelho de um povo que não tem mania de dar “jeitinho” para tudo.


Autora: Érica Marina

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