1 de setembro de 2010

Independência e autoestima da mulher

Esse meu texto é novamente direcionado às mulheres, não porque ele não valha, no seu conteúdo, também para homens, mas porque tenho visto amigas, colegas, amigas de amigos e aquelas mulheres das histórias que os outros contam se submeterem voluntariamente a situações de dependência com o parceiro ou cônjuge. Porque, fruto do tradicionalismo ou das heranças sociais dos nossos tempos, as mulheres se vêm nesse tipo de situação com uma frequência singular.

Obviamente, quando se fala de independência, o primeiro valor que se vem à mente é do campo financeiro, mas isso é absolutamente natural. Não há independência de fato se há credores: no mundo em que vivemos o dinheiro não compra a felicidade, mas é o único a garantir a autonomia. Entretanto, por trás da dependência financeira podem existir diversas outras dependências que precisam ser trabalhadas no campo psicológico. Com base em complexos comuns aos seres humanos, a sociedade se constitui tradicionalmente da figura masculina fornecedora e da feminina dependente.

A psicanálise freudiana explica, talvez de forma figurativamente expressiva, o comportamento do homem e da mulher perante o sexo oposto. Instintivamente, quando criança, o indivíduo se apaixona pelo peito da mãe como se essa fosse a sua razão de existir. Para o homem que não foi adequadamente criado para superar o trauma da desamamentação, ele procurará o seio da mãe nas mulheres que encontrar pela vida, buscando em cada uma delas a atenção de mãe que ele deixou de ter: é o chamado Complexo de Édipo. Para a mulher, a versão é um pouco diferente, sendo batizada como Complexo de Electra, mas também, por vezes sendo generalizada com o nome anterior. A menina, quando descobre que nela falta o pênis algo que só o homem tem, tende a se desapegar do seio materno e começará a competir com a mãe pela atenção do pai. Se esse complexo não for bem resolvido, buscará nos homens da sua vida algo que só eles têm a fornecer, passando a competir com outras mulheres para ser mais atraente e tendo sempre uma sensação de vazio ou incompletude do seu ser.

Mas é incrível como se passam milênios e a humanidade continua lutando para se livrar do seu primitivismo. As mulheres há muito conquistaram o seu espaço no mercado de trabalho, mas muitas vezes ainda tendem a se postar submissas e dependentes de homens que, por sua vez, colocam o seu valor na sua habilidade para o papel de fornecedor. Às mulheres cabe desenvolver a sua autonomia em sentido amplo. Por exemplo, é de conhecimento geral a infelicidade de depender de pedir dinheiro a outrem para cada atividade que a pessoa desejar, participando desse enredo o desenrolar de explicações que às vezes deveriam se reservar ao campo íntimo. Para ser específica, como explicar que você deseja muito um sapato que na cabeça do outro você não precisa? Daí surgem frustrações e também se constrói uma trama de extorsão e chantagem vindas da pessoa dependente. Absolutamente deplorável. Pior ainda é se o homem sente que nesse papel de fornecedor, com o controle do dinheiro (e da situação) está a garantia de sua masculinidade.

Contudo, como eu disse anteriormente, não é só no campo financeiro que a mulher deve tratar sua dependência. A ela cabe desenvolver uma autoestima e uma autosuficiência que faz com que ela se baste. Que ela invista em si mesma, procurando se sentir bonita, atraente, interessante. É importante que ela tenha também uma independência afetiva. Isso não significa ser fria, nem anti-romântica, significa que o seu estado de espírito não dependa exclusivamente de como vai o seu relacionamento. Aliás, a busca por outras fontes de bem-estar e alegria enriquecem a relação quando esses elementos vêm completá-la com histórias para contar, opiniões diferentes, aprendizados novos. Por outro lado, como todo o relacionamento tem altos e baixos, não é interessante que o bem-estar ou, mais ainda a vontade de viver, dependa exclusivamente disso. Cada pessoa tem que ser completa em si mesmo e buscar no outro a paz de espírito, o companheirismo e o amor desapegado. Amar, definitivamente, não é exercer poder sobre o outro, não é controlá-lo, nem ter ciúme. O amor conjugal é uma troca de boas energias que se enriquecem mais que na amizade pela cumplicidade e intimidade entre o casal.

Por outro lado, também é necessário que o amor e a confiança andem juntos, sempre. Mas se algum dia a confiança ruir, que ela tenha estrutura psicológica e independência financeira para se sentir à vontade para partir (abstraindo-se outros motivos para se considerar numa separação). E digo isso porque são inúmeros os exemplos de relacionamentos que se arrastam apenas porque a mulher não tem como se sustentar sozinha ou ainda não se sente segura em estar só. Quem nunca tomou conhecimento de alguma que fecha os olhos para as traições do marido, por mais que isso lhe doa? Se ela tiver coragem, no caso de separação e dependência financeira, a lei instituiu a pensão. Bastante paternalista esse dispositivo da lei... mas se já é desgastante tirar dinheiro de alguém afetivamente vinculado, imagine alguém que preferia ver-lhe pelas costas. Aliás, que situação lastimável uma pessoa viver assim como parasita financeira da outra!

Todavia, quando se trata do assunto a esse nível, pensa-se na relação homem-mulher para o casamento ou união estável. Mas essa relação começa mais cedo: logo nos primórdios do namoro o moço pode achar elegante pagar as contas do casal. Fuja desse germe da relação de dependência. Logicamente, se alguém do casal tem uma situação social mais privilegiada, talvez seja justo que tenha uma participação maior nas despesas. Mas cuidado! Prefira deixar o cavalheirismo para situações como abrir a porta do carro.

Por fim, não foi raro no passado as moças que saíram da relação de dependência financeira dos pais para uma relação de dependência com o marido: mas ainda não o é. Se por acaso o casamento deve esperar que o homem se estabeleça financeiramente, porque ele não pode esperar a estabilização da mulher? Claro que, se a mulher desejar desvincular-se da família para se atrelar ao homem num momento imediato, que ela não deixe para depois a continuidade de sua colocação profissional, por exemplo, continuando seus estudos, ou não deixando para trás seus projetos. Nitidamente, devo advertir, esses conselhos não são válidos para aquelas que têm na união um interesse estritamente financeiro: pois essas escolhem por gosto o parasitismo. Para todas as outras, a autoestima vale muito mais do que isso.



Autora: Érica Marina

Um comentário:

  1. Oi, o texto acima foi um tapa na minha cara para me fazer acordar. Obrigada...
    Chega de ser mocinha, indefesa esperando o principe encantado. É hora de virar mulher e lutar por mim mesma.

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