6 de novembro de 2010

Enfrentando a vida

Com alguns minutos de reflexão, podemos concluir que nascemos destemidos. A criança pequena precisa ser vigiada o tempo todo pelos pais para não cair da cama, não pegar a faca, não sair à rua. Então, de onde surge o medo? O medo tem duas origens: o aprendizado e o trauma. Você pode aprender com os pais que não deve pegar a faca senão ela machuca, como também aprende a ter medo de se machucar porque já passou por isso. Os dois tipos de aprendizado são em resposta à dor: ou presumida, ou sentida de fato. A outra origem do medo está nos traumas que contraímos durante a vida. O trauma pode ser definido como um aprendizado brusco em resposta à dor sentida ou a um sentimento muito forte. Há, também, quem afirme que o trauma é uma resposta a qualquer sentimento forte de mudança, mesmo que para melhor.

Em geral, o medo deve ser considerado um aliado à preservação da vida. Mas como todo remédio, há uma dosagem correta para cada paciente. O medo excessivo é caracterizado na psicologia e psiquiatria como fobias: fobia de escuro, fobia de lugares altos, claustrofobia, fobia social etc. Existem métodos disponíveis em consultório para se tratar esses medos acentuados que, em geral, têm origem no trauma. Além disso, também, só em consultório alguém consegue o apoio para a solução de traumas complexos, como os advindos de um acontecimento trágico. Mas se nada de tão trágico aconteceu com você, permita se autoanalisar perguntando: por que, em certos momentos, você tem medo da vida?

O que se percebe, frequentemente, é que a soma das responsabilidades sobre nós faz-nos mais medrosos. Quando jovens, solteiros, podemos praticar esportes radicais ou simplesmente largar o emprego que não nos vem fazendo bem. Mas, quando vem a responsabilidade de um compromisso, de filhos e outras, de repente nos tornamos medrosos. É natural. Contudo, devemos ponderar os nossos temores, avaliando que medo é importante para a nossa conservação.

Quando algum sentimento nos impede de ser feliz, avaliemos: esse medo é necessário? O medo de perder a vida, se machucar fisicamente e não prover meios de sobrevivência é instintivo e útil. Apenas trabalhemos para que não se torne excessivo.  
Mas se algum temor só causa sofrimento inútil, então deve haver algo errado. Somos ensinados, por exemplo, a temer o erro. “E se eu escolher errado, se eu fizer errado, se eu tentar e falhar?” Se a pergunta em questão não envolve risco sério, faça de novo, conserte, continue tentando. É tão simples! É claro que a falha pode ser origem de trauma, mas é preciso percebê-lo e trabalhá-lo. Certas vezes, temos medo de arriscar algo novo: de onde surge e qual a fundamentação para você se sentir mais seguro onde está? Será que aqui não é tão inseguro quanto em outro lugar?
Percebendo que os seus problemas de enfrentar a vida estão assentados sobre o medo, existem três caminhos de reparação: reavaliar o que foi ensinado, trabalhar um trauma e poupar contra o medo.
1) Dizem que descobrir a origem de um trauma é o primeiro passo para se livrar dele. Alguns atribuem à descoberta uma válvula de resolução do trauma por si só. Não é tão simples assim. É preciso que você trabalhe o trauma: sozinho, procurando entender-se e, talvez, perdoar-se, ou com ajuda profissional.
2) Quando você procura por um trauma para entender o seu medo infundado e não o encontra, então pergunte: onde foi que eu aprendi isso? Essa é uma oportunidade de reavaliar o que você aprendeu com as próprias experiências e o que absorveu dos outros sem maiores ponderações. Todo temor infundado deve ter por trás uma lógica truncada, uma argumentação furada, uma imaginação extravagante e é por meio de muito raciocínio que você pode de repente desmascarar seu medo (Ah-há!!!). O ciúme, por exemplo, é um medo extremamente fantasioso, que surge com a imaginação de o que a pessoa vítima dele pode estar fazendo ou pensando. De onde vem essa fantasia? O sujeito lhe dá mesmo motivos? Você tem um histórico familiar de traição? Onde você aprendeu a pensar assim?
3) Poupar para o medo. Se você passa uma vida orçamentária equilibrada, sem grandes endividamentos e poupa parte do seu dinheiro ao longo do tempo, você criará uma situação confortável para possíveis imprevistos financeiros. Isso não é diferente com relação à sua carga sentimental. É preciso saber usar os sentimentos que vêm de você, sem desperdiçá-los, sem gastá-los em excesso. Se você ama, tenha maior amor por você do que pelo outro, mas também não deixe de amar. Se um dia alguém partir, parte do amor está em você. É esquisito falar em poupança de um sentimento que teoricamente se multiplica, mas há quem não deixe para si nada de amor-próprio. A mesma coisa está na vaidade, por exemplo: que você se poupe dos excessos, para que o orgulho não seja a origem dos seus medos. Com relação às suas energias, poupe-as para si, para a família... poupe-as de desgaste inútil, ou então você passará por algum tipo de estresse.
Em síntese, observe-se e permita-se compreender o seu eu. Avaliando as suas potencialidades e predisposições, você tem em mãos a matéria-prima para se melhorar sempre: seguindo seus próprios princípios, valorizando-se, cobrando de si o melhor, mas também se perdoando quando preciso.

Autora: Érica Marina


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