25 de novembro de 2010

Inimizade gratuita: o que foi que eu fiz?

 Não é raro alguém nutrir uma antipatia sem que o objeto de desafeto tenha efetivamente cometido algum erro. Diante de pessoas que ostensivamente ou pelas costas demonstram a inimizade, a vítima se pergunta: o que foi que eu fiz? O que acontece é que é difícil perceber e aceitar que a inimizade pode ser gratuita, originada simplesmente de uma falha na personalidade de quem a nutre.

Em geral, a inimizade é atribuída ao sentimento de inveja: “eu me sinto incapaz de ser igual ou de possuir as mesmas qualidades, ou os mesmos recursos materiais, e por isso quero destruir aquilo que me faz sentir inferior”. Esse sentimento pode explicar muito das manifestações gratuitas de inimizade, mas não explica todas. A antipatia ou ódio que uma pessoa nutre por outra são, com certeza, manifestações de seu subdesenvolvimento moral, mas não necessariamente são causadas pela constatação pessoal da inferioridade moral ou material frente à outra pessoa. Em outras palavras, quem nutre sentimentos inferiores certamente é pouco evoluído moralmente, mas seu problema não necessariamente é a inveja.

É comum, quando alguém chega em um ambiente novo, por exemplo, podendo ser um novo emprego ou uma nova escola, que certas pessoas automaticamente declarem antipatia. Isso acontece porque o novo elemento inserido no contexto geralmente ameaça a ordem reinante até então. De acordo com quem o encara com antipatia, este novo elemento pode se tornar um competidor que vai de alguma forma lhe roubar um pedaço do espaço, da atenção, uma fatia da admiração ou parte de seus privilégios. Nesse caso, a inimizade vem de um sentimento de possessividade: “o meu inimigo é aquele que ameaça o que antes era meu”.

Por outro lado, essa pessoa estranha que chega para se unir à estrutura anterior pode acabar modificando o andamento usual da rotina, a divisão habitual do espaço e do tempo disponíveis. Desta forma, quem se sente confortável com a estagnação pode temer a mudança, colocando a culpa dela no agente estranho que rouba a cena. Assim, nesse caso, a inimizade pode partir do simples sentimento de desconforto: “o inimigo é aquele que 'atrapalha' a minha vida”.

Mas a inimizade tem fontes ainda mais complexas. Em todos os ambientes, pode acontecer que pessoas com personalidade e atitudes bastante parecidas, que, teoricamente têm muitos motivos para desenvolver uma afinidade, acabam por se tornarem mutuamente antipáticas uma à outra. Por que, então, em vez de desenvolver uma amizade, elas vão parar no campo da inimizade? Simplesmente porque o que as incomoda é justamente o que é igual: trata-se do princípio do espelho, que pode ser observado de duas formas:

Espelho dos defeitos: “O que eu menos suporto em mim mesmo é o que eu não posso aceitar no outro”, sendo uma manifestação de não-aceitação da própria personalidade ou de predisposições pessoais ocultas.

Espelho das virtudes: “o que eu mais admiro em mim mesmo, essa pessoa tem!”, o que representa uma ameaça de competitividade.

Logicamente, essa constatação pode não existir de maneira consciente por parte de quem está envolvido na situação, mas atua no seu subconsciente a repelir a comparação entre o próprio eu e a pessoa a quem dirige o desafeto. Deste modo, a inimizade que surge do espelho que a outra pessoa representa para seu próprio eu (ou de parte dele) se ocasiona de um sentimento de orgulho.

Muitas vezes, para justificar esse tipo de sentimento inferior que sustenta a sua inimizade, o indivíduo desenvolve um comportamento de autoproteção ao atribuir o seu desafeto a uma atitude qualquer de sua vítima. Procura ele, então, ansiosamente, algum deslize, algum traço de personalidade, alguma escolha, algum acontecimento qualquer que desmereça o objeto de sua inimizade, corroborando-a. Vezes sem conta, se descamba para a calúnia ou a maledicência.

O que a vítima deve fazer diante disso? Em primeiro lugar, ela deve tomar consciência de que não adianta justificar seus erros, pedir desculpa, tentar mudar, pois a origem da antipatia não está nela. Em segundo lugar, ela deve tentar exercer sua humildade, aceitando as indignidades que são lançadas a ela, firme em suas atitudes e escolhas, e deixando que o tempo mostre o seu verdadeiro valor. Não ajuda nada tentar forçar a amizade, por que isso pode simplesmente reforçar a inimizade. Também não é aconselhável forçar seu jeito de ser para se sentir aceito: já que estará aumentando as possibilidades de ser vitimizada por suas próprias atitudes. Por fim, é preciso trabalhar seu próprio orgulho, pois é dele que parte a necessidade ser totalmente aceito.

Autora: Érica Marina

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