9 de novembro de 2010

Tabu: sexo antes do casamento

A nossa sociedade pende sempre entre o libertino e o pudico. Como ponderar os dois extremos em matéria de sexo?! Um dos tabus mais recorrentes diz respeito ao sexo antes do matrimônio. Muitas vezes, algumas pessoas são levadas pela sua crença religiosa ou pelo conservadorismo social a acreditar que o sexo não é correto antes do casamento. Por que existe essa vinculação?!

Origem histórica

Antes de avaliarmos a questão a fundo, vamos estudar um pouco a história do casamento. A princípio, não era necessária cerimônia religiosa nem formalidade legal para que o casamento fosse considerado válido, apenas bastando a coabitação entre um homem e uma mulher. No início do milênio passado e mesmo na época de Jesus – o maior inspirador das religiões atuais – o casamento era uma cerimônia familiar, feita pelo testemunho do casal e na presença das famílias, sem a expedição de documentos. Isso significa que a união era o casamento em si, sem necessidade de documentação. Só havia escrituração de documentos no caso da Carta de Repúdio ou do Divórcio – no primeiro caso, o marido não querer mais a mulher, e no segundo, a mulher ser considerada adúltera.

Segundo os historiadores, a cerimônia de casamento, com vestimentas especiais, flores, véu e aliança, advém da Roma antiga e, portanto, devemos salientar, surgiu como uma cerimônia pagã. Além disso, o conceito de pureza associado à virgindade vem desta época, remontando às tradições da Roma e da Grécia Antiga. A monogamia também foi instituída em Roma como o “direito de casamento”. A princípio, a cerimônia de casamento nos moldes que conhecemos hoje era exclusiva aos patrícios. (Não há quem desconheça que as cerimônias tradicionais de hoje em dia são uma imitação dos plebeus ao casamento dos nobres.) Contudo, com o passar do tempo, as regras foram se tornando mais igualitárias, permitindo-se aos plebeus a realização do casamento e às mulheres o pedido de divórcio. Todavia, mesmo multiplicando-se os dispositivos legais, isso não moralizava o comportamento geral da época, sendo comum os que se casavam e se descasavam várias vezes ou contraíam relações fora do casamento.

Como essas tradições se misturaram ao cristianismo? Acontece que, como é comum na história das religiões, antigas tradições são misturadas à nova fé para lhe dar mais credibilidade ou para torná-la mais facilmente difundida.Por várias vezes, a Igreja Católica Romana, a precursora de várias outras Igrejas, reuniu Concílios em torno da criação e modificação de dogmas, sem necessariamente submeter-se aos conceitos bíblicos, mas sempre aos interesses mundanos imediatos. Em 755, o Concílio de Ver proclamava: "Que todas as bodas sejam públicas”! Muitas vezes afirmam os religiosos que o casamento é “símbolo da união indissolúvel entre Cristo e a Igreja”. O que isso realmente quer dizer, que não faz sentido nenhum?

Desvirtuamento do matrimônio

Os casamentos por interesse remontam à própria origem da cerimônia. Mas na Idade Média o casamento se tornou um pacto comercial entre famílias. Devido aos interesses atrelados ao casamento ao longo das gerações, o simbolismo da cerimônia foi sendo manipulado pelas autoridades religiosas com a intenção de aumentar seu poder. Se na Idade Média nações se juntavam ou se dissolviam em virtude de casamentos, era interessante vincular essa realização aos poderes eclesiásticos. Também era conveniente vincular um imperativo da vida comum – a união de dois seres com finalidade de formar família – aos interesses da Igreja.

Ainda hoje, o casamento é muitas vezes utilizado como tema sensacionalista nos discursos de padres, pastores, ministros e outras figuras religiosas. Quantas coisas desarrazoadas não dizem eles a respeito do casamento! Quantos não aproveitam a cerimônia na tentativa de converter ou atemorizar os convidados dos noivos? Para consagrar a virtude do celibato antes do casamento, que não foi pregada por Cristo, muitos dos ditos cristãos se esquecem da verdadeira virtude que liga o sexo ao casamento: o amor conjugal.

Devemos salientar que o desvirtuamento não está em nenhuma religião, mas somente no homem. Cada um que escolha a sua fé, mas saiba distinguir o que faz sentido e está assentado na verdade, e o que interessa ser ensinado nos templos religiosos em virtude de interesses puramente mundanos. Nesse sentido, um pouco de história sempre faz bem.

Por outro lado, é condenável, também, a pessoa que discorda dos preceitos de uma religião, mas se submete à ela apenas por conveniência para a celebração do casamento. Para esses casos, é interessante que a pessoa procure realizar uma cerimônia ecumênica ou realize as formalidades em salão ou chácara. Nada impede o ritual tradicional, que não nasceu na Igreja, fora da Igreja...

Discussão religiosa

A Bíblia claramente condena a fornicação. E os defensores de correntes que condenam o sexo antes do casamento dizem que fornicar é ter relação sexual antes de se contrair o matrimônio. Mas, segundo os dicionários, fornicar é apenas "copular", "ter relações sexuais". Não seria a definição, então, manipulada para fazer concordar com o que querem defender?

Uma interpretação mais razoável é que o problema que a Bíblia aponta é fazer da relação sexual um comportamento animal, sem responsabilidade, sem discernimento, sem amor. Mesmo porque, na época em que a Bíblia foi escrita não existia cerimônia em igreja.

Convencionalismo social

Herdeira dessas bases legais louváveis mas também da imoralidade na prática, a sociedade atual se esforça às cegas a desatar esses nós da tradição. Não faz mais de duas ou três décadas, era comum o homem preservar a virgindade da namorada em troca de sexo fora do relacionamento. Que hipocrisia é esta? Não é mais honesto aceitar que duas pessoas se conheçam e se envolvam de maneira progressiva e exclusiva?

O verdadeiro sentido do sexo e do casamento

Como vimos, não há maneira mais simples de definição de casamento que a pura coabitação. O sexo, em várias religiões e doutrinas, é considerado sagrado. Entretanto, se é possível afirmar que o sexo só vale a pena se houver amor, também se pode dizer o mesmo sobre o casamento. Aliás, será que o casamento sem amor não é mais grave do que o sexo? Por outro lado, o sexo sem amor, mesmo dentro de um casamento, não é puramente uma manifestação animalesca, para satisfazer instintos, em vez de aproveitar o sentimento próprio do racionalismo humano? O sexo é uma entrega mútua que não exclui a responsabilidade de suas consequências.

Quando se fala em sexo antes do casamento, isso significa que se supõe que haverá um matrimônio. Não sendo o ritual externo uma necessidade, quando duas pessoas resolvem se unir, se unem na fidelidade e segundo sua crença. Se quiserem oficializar, com a intenção de legalizar em termos civis a união, basta tão somente a contratação, ou seja, o casamento civil. Se quiserem ser abençoadas, basta uma oração.

Hoje é muito comum os casais demorarem um pouco para celebrar o casamento, tanto pelo custo elevado de se fazer uma festa segundo as tradições, quanto pela necessidade de independência financeira para que morem juntos. O que os impede de praticarem o sexo até lá? Se os dois se amam e se respeitam, se são fiéis, por que adiar? A troco de que a sociedade reprime a manifestação sexual postergando-a para depois do casamento?


Como todos sabemos, o amor e a intimidade acabam mais cedo ou mais tarde levando ao sexo. O que isso tem de mal se é natural? Esta pergunta ajuda a procurar a resposta:

Vamos dizer: se as potências do homem na visão, na audição, nos recursos imensos do cérebro, nos recursos gustativos, nas mãos, na tactividade com que as mãos executam trabalhos manuais, nos pés – se todas essas potências foram dadas ao homem para a educação, para o rendimento no bem, isto é, potências consagradas ao bem e à luz, em nome de Deus, porque seria o sexo em suas várias manifestações sentenciado às trevas? (Chico Xavier)

Em algumas religiões, para poupar os noivos de tal “pecado”, a cerimônia é antecipada para a juventude ainda imatura. Não há necessidade disso em vista do compromisso dos dois, apenas contribuindo para a precipitação das coisas e para a interrupção de uma trajetória natural na educação e crescimento profissional dos jovens.

Namoro interrompido

E se, mesmo com a intenção de casamento, o namoro não dê certo, tendo sido praticado o sexo? Se isso acontecer, só há o que lamentar, pois o amor de fato não deveria existir, já que ele não perece. Inclinados à paixão superficial, levados pela conveniência ou por interesses materiais, nada de sublime havia na união do casal. Ou, por outro lado, outros fatores se sobrepuseram ao amor. Se um honrava o compromisso e o outro traía, infeliz dos dois: um porque não soube avaliar a quem se entregava e outro porque colherá o que planta. De qualquer forma, antes do casamento não é melhor do que depois? A separação dos namorados prescinde de complicação legal.

Sexo sem compromisso

Como se observa nas correntes de pensamento de toda a história da humanidade, extremos opostos costumam digladiarem-se sem procurar por um meio termo. Com o perdão da generalização, se a geração anterior hipocritamente velava a virgindade, sem muitas vezes atinar-se com ela, essa geração se joga nos abismos da falta de compromisso. Esse comportamento com certeza causa consequências dolorosas. Pode-se argumentar que duas pessoas podem muito bem querer algo mais simples do que pede um compromisso... mas, possivelmente, se uma tiver um sentimento a alimentar o desejo de envolvimento, esta sairá com o coração partido. Além de ser responsável pelas dores morais que causa ao outro, cada um colherá o que planta também em matéria de sexo.


Autora: Érica Marina

________________________________________________

Notas:

1) Apesar de algumas críticas, a autora é cristã. As críticas são apenas às falhas humanas.

2) Respeitemos a Igreja Católica como mãe de grande parte das religiões atuais. Mas entendamos que foram feitas modificações na doutrina original de Cristo:
3) Algumas religiões como os evangélicos e protestantes, apresentam divergências sobre o tema. Muito disso pode ser atribuído ao fato de que cada pastor tem uma leitura pessoal dos textos bíblicos, sem haver um direcionamento de cima a baixo por meio de instituição de dogmas.

4) É normal encontrar textos que afirmam que o casamento, a monogamia e o elogio à virgindade são criações cristãs. Leia o Evangelho ou a História para concluir que isso não é verdade.

5) Apesar da resistência de algumas igrejas em virtude da necessidade de continuidade dos dogmas instituídos pelas suas próprias autoridades, outras religiões abordam o sexo e o casamento de maneira mais aberta. Eis aqui alguns exemplos de acordo com a religião.


5 comentários:

  1. Como sempre, estarei disposta a publicar diversas opiniões a respeito do tema, inclusive as contrárias à minha, pois julgo toda discussão útil.
    Apenas não permitirei ofensas pessoais.
    Antes de comentar, leia também as notas de rodapé do texto.

    ResponderExcluir
  2. Érica adorei sua abordagem sobre o tema casamento.Eu gostaria de saber de sua base teórica, sua bibliografia para esse tema, meu e-mail é d_vi_15@hotmail.com.
    DAVID NEPOMUCENO

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, David!
      Na verdade, eu apenas reescrevi uma história que eu já conhecia dos livros. Mesmo assim, para fundamentar meu texto, pesquisei o tema na internet e tive dificuldade em encontrar embasamento para o que eu já conhecia. Fiz várias buscas, mas acredito que as fontes mais importantes são essas:

      História do casamento:
      http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/casamento/historia-do-casamento-1.php

      “Casamento, uma invenção cristã”:
      http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/casamento_uma_invencao_crista.html

      Casamento na Roma Antiga da Wikipédia:
      http://pt.wikipedia.org/wiki/Casamento_na_Roma_Antiga

      Casamento na versão em inglês da Wikipedia:
      http://en.wikipedia.org/wiki/Marriage

      Casamento na Roma Antiga na versão em inglês da Wikipedia:
      http://en.wikipedia.org/wiki/Marriage_in_ancient_Rome

      História do casamento na civilização ocidental (em inglês):
      http://www2.hu-berlin.de/sexology/ATLAS_EN/html/history_of_marriage_in_western.html

      Excluir
  3. Olá Érica, vi seu texto no Blog Dona Giraffa por indicação de uma amiga, pois esse assunto sempre é tema das nossas rodas de discussões, uma vez que sou católica e ativa na minha comunidade.
    O maior motivo das nossas discussões é que eu não concordo com tudo que a igreja prega por alguns motivos que pra mim são óbvios. Primeiro, a igreja é feita por homens, e estes são passíveis de erros. Segundo que eu tenho a minha própria opinião, baseada em diversos estudos. Como diria Humberto Gessinger: "Fé cega e pé atrás".
    Tenho alguns textos a sobre o assunto, e um em especial que gostaria de compartilhar. Se for possível, gostaria de um contato seu.
    Parabéns pelo texto, muito bacana!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pelo comentário, Mariana! Muito interessante e pertinente.
      Escreva para: muitofosfato@gmail.com.

      Excluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Ocorreu um erro neste gadget