10 de dezembro de 2010

A concepção filosófica e científica de Deus

"Um homem sábio ajusta sua crença à evidência" (David Hume)

O acaso, por definição, não é nada nem ninguém. Mas há quem dê a ele poderes sobrenaturais como a criação da vida e do universo. Fred Hoyle (1915-2001), um notável astrônomo britânico, é autor de uma analogia exaustivamente citada: “Acreditar que a primeira célula tenha se originado pelo acaso é como acreditar que um tornado varrendo um ferro-velho possa montar um Boeing 747 a partir dos materiais presentes ali”. Pode-se estender o mesmo raciocínio para a criação do universo, por exemplo. Os cientistas construíram a partir da expansão contínua do cosmos a Teoria do Big Bang: em algum momento, não havia nada, não existia o tempo nem o espaço, mas havia um ponto de energia que explodiu e se expandiu continuamente gerando o universo. Além de essa concepção ferir nossa racionalidade, pois é difícil entender o nada e a inexistência de tempo e do espaço, há uma peça-chave que falta na explicação. O que (ou quem) fez com que essa partícula existisse e explodisse?

Essa mesma teoria vem sendo posta em cheque atualmente (ver "O dia em que o universo quicou"), mas o questionamento sobre a origem do universo parece estar fadado a ser uma pergunta eterna, sempre com a resposta conveniente e preguiçosa de que provavelmente foi resultado do acaso. Isso parece indicar que o acaso é simplesmente uma invenção para admitir a grandeza e a ordem sistemática do universo sem ter que atribuí-la a uma inteligência superior. Assim, para se furtar de imaginar um Deus, seja como ele for, muitos atribuem prodígios ao nada. Contudo, a própria aleatoriedade parece ter uma ordem que pode ser prevista por equações segundo a chamada Teoria do Caos.

A ciência é muitas vezes colocada como dissociada do sentimentalismo e da fé. Entretanto, a racionalidade estrita está limitada. António Rosa Damásio (1944 -), um renomado neurocientista português, atualmente professor de Neurosciência na University of Southern California, demonstra em seu livro “O erro de Descartes” que a dicotomia entre emoção e congnição é completamente falsa. O livro descreve o seu trabalho como neurologista com muitos de seus pacientes que apresentavam lesões cerebrais, frequentemente no lobo frontal, tornando-se incapazes de manifestar emoções. Essas pessoas acabavam sendo paralisadas pela indecisão, incapazes de avaliar prós e contras das decisões a serem tomadas por não conseguirem formular juízo de valor. Assim, por mais recomendado que seja ao cientista distanciar-se de ajuizamento sobre o que tem diante dos olhos, a própria escolha do tema e o direcionamento da pesquisa são levados por uma lógica que nunca será estritamente racional.

Muitos cientistas se portam como superiores a qualquer crença em Deus ou outra, partindo do conceito equivocado de racionalismo puro. Entretanto, se a fé puder ser definida como a constatação de uma ordem sistemática e harmônica do universo, pode-se dizer que não há ciência sem fé. O próprio Francis Bacon (1561-1627), que sistematizou o método científico de investigação baseado na experimentação e na razão indutiva, estabelecendo como objetivo a descoberta da verdade, rejeitou o ateísmo, qualificando-o como resultado de profundidade insuficiente da filosofia. Segundo ele, “É verdade que um pouco de filosofia inclina a mente do homem ao ateísmo, mas a profundidade em filosofia traz de volta mente do homem à religião; por um tempo a mente do homem olha causas dispersas e secundárias, e deve algumas vezes repousar sobre elas, e não ir mais longe; mas quando a contemplação da cadeia delas se unir, a mente deve precisar voar para a Providência e a Deidade.” Assim, quando perguntas encadeadas são feitas à procura de uma resposta definitiva, chega-se a um ponto que só algum conceito abstrato como Deus pode respondê-las.

Isaac Newton (1643-1727), cientista renomado na área de matemática e astronomia e que estabeleceu os principais fundamentos da Física, chegou à conclusão científica de que o Universo entraria em colapso se não existisse uma força que interviesse, e esta força seria sua concepção de Deus. De acordo com ele, "a maravilhosa disposição e harmonia do universo só pode ter tido origem segundo o plano de um Ser que tudo sabe e tudo pode. Isto fica sendo a minha última e mais elevada descoberta." Filósofos posteriores criticam essa concepção, alegando que o conceito newtoniano de Deus é ineficiente, já que seria necessária Sua intervenção constante no universo por Ele criado. À primeira vista, essa alegação parece ser contrária a um paradigma fundamental da crença em Deus que é a perfeição. Contudo, a análise aprofundada pode nos mostrar que o sol nada faz e nada interfere na vida dos seres vivos do planeta, mas que sua existência é fundamental para a continuação deles, alimentando-os com sua energia.

A ideia de que Deus existe, se aceita, traz o questionamento da sua forma. E é claro que a imagem de um senhor sentado no trono não faz sentido desde que a concepção de Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) de divisão entre céu – perfeição – e terra – imperfeito – foi impugnada pelo desenvolvimento da astronomia. Apesar disso, essa concepção, que nada mais é do que um Zeus mal-repaginado da mitologia grega ou outras figuras milenares, ainda é a representação mais comum de Deus. Provavelmente, é isso que afasta a concepção de Deus de uma aceitação racional.

Albert Einstein (1879-1955), revolucionário na forma de pensar o tempo, a gravidade e a conversão de matéria em energia, nunca declarou a crença em um Deus pessoal. Apesar disso, ele reconhecia a impossibilidade de um universo não-criado. Negando firmemente o ateísmo, o cientista expressava sua crença em um Deus de Spinoza (1632 -1677), que revela a si próprio na harmonia do que existe. Einsten, além da conhecida frase “Deus não joga dados”, declarou certa vez que “gostaria de saber como Deus criou este mundo. Eu não estou interessado neste ou naquele fenômeno, no espectro deste ou daquele elemento. Eu quero conhecer os Seus pensamentos, o resto é detalhe”. Provavelmente o mais conhecido cientista do século XX, ele deixa um recado instigante: “Ciência sem religião é insatisfatória, religião sem ciência é cega.”

Observando esses conceitos modernos da ciência e unindo-os a definições teológicas, tem-se uma definição sutil e aproximada de Deus. Ele seria a energia que deu início ao universo e até hoje o faz crescer com infinita criatividade. Sua existência é fundamental para fazer todo o complexo de criação e de vida se manter. Individualmente, Sua existência é fundamental para que nutra a existência humana de uma fonte de energia vital e inteligente da mesma forma que o sol nutre aos seres vivos de energia vital em escala menor.

Chandra Mohan Jain (1931-1990), ou simplesmente “Osho”, professor de filosofia na Universidade de Jabalpur, na Índia, e um filósofo controverso, definiu bem o aparente dualismo da busca "pela energia que mantém a existência interligada — chame-a de Deus, chame-a de verdade, chame-a como você queira chamar", nas seguintes palavras:
A religião chama essa energia de "Deus". Os cientistas não concordarão com a palavra "deus"; parece pessoal demais. Parece demasiadamente antropomórfica, indicativa do homem. Eles a chamam de eletricidade, magnetismo, campo energético; mas apenas o nome é diferente. Deus é um campo de energia.”

 
 
Autora: Érica Marina

2 comentários:

  1. Robson Montenegro12/12/10 18:27

    Belo "review".
    Mas ainda estou com Hobbes:

    "Quando dizemos que alguma coisa é infinita, queremos apenas dizer que não somos capazes de conceber os limites e fronteiras da coisa designada, não tendo concepção da coisa, mas de nossa própria incapacidade."

    Venero sim, minha dúvida.

    Continue escrevendo. É um alento.

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  2. Foi preciso muita pesquisa para fazer este texto né!!
    Creio que este seu estudo foi muito válido para que a gente possa chegar a uma simples conclusão: livre arbítrio.

    Cada um vai crer naquilo que seu intelecto mais se identifica.
    Perguntas sem respotas, como a criação do universo, tendem sim a permanecer pra sempre, pois por mais evoluída que a ciência se encontre, ela não conseguiu trazer uma explicação convincente.
    Ao contrário do comentário acima, eu prefiro ficar com Fred Hoyle:
    “Acreditar que a primeira célula tenha se originado pelo acaso é como acreditar que um tornado varrendo um ferro-velho possa montar um Boeing 747 a partir dos materiais presentes ali”.
    E acrescento ainda, que não houve, não há e nunca haverá nesta terra, alguém tão perfeito em inteligência e conhecimento que fosse capaz de criar, a partir de uma célula, o universo.
    Conhecemos um bordão muito famoso:
    "cientistas BRINCAM de serem Deus"
    Este bordão quase sempre esta ligado à invenções ligadas a clonagem, porém a cada dia que passa, fica mais evidente que, por mais que a ciência evolua, por mais que os cientistas se aperfeiçoam, eles nunca conseguirão algo que somente Deus consegue...a PERFEIÇÃO.

    A busca pela verdade, é algo íntimo e pessoal, não é algo que deva ser imposto a niguém, porém, saber das opções e conhecer a "verdade" das pessoas, nos faz capaz de tomar decisões como esta e acreditar naquilo que vai de encontro não só ao nosso intelecto, mas também e, principalmente, ao nosso coração.

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