20 de novembro de 2011

Sofrimento

Qualquer dor física é irrecuperável na memória.

Mas tem um tipo de dor que ninguém consegue entender melhor que nós mesmos. Só consegue entender inteiramente quem já passou exatamente pelo mesmo. E a pessoa quando te olha, sentindo a mesma dor, resgata o sofrimento não-curado de dentro de si própria. Ela se olha no espelho que é o outro, e se lembra do quanto dói.

Essa dor cravada na memória, fossilizada em mágoa, esse sofrimento que martiriza às vezes anos a fio, bastando ser lembrado, é a dor que só um ser humano pode causar ao outro. Privação, negação, não-amor, luto, saudade, humilhação, assédio, arrogância. É o ser humano que mais machuca o próprio ser humano.

E nesses dias em que a tristeza toma conta, esquecemos de olhar a vida com o otimismo habitual e nos vemos como miseráveis que lutam a encontrar dias felizes em uma vida de sofrimento. Nos sentimos iludidos buscando recompensar com algum esforço os momentos ruins da nossa própria vida, ou pior: percebemos que estamos nos esquecendo de correr atrás. São nesses dias que nos damos conta que o final feliz não existe.

Nesses dias é que precisamos do remédio tão em falta: amor. E na falta de amor, buscamos, no mínimo, identificação. Queremos conversar com alguém que saiba o que estamos sentindo. Precisamos ler algo que traduz exatamente o que se passa no nosso interior. Em síntese, necessitamos encontrar como nossa própria salvação a esperança de que alguém, ser humano como nós mesmos, já se sentiu exatamente como estamos nos sentindo.

Até nesses dias, entretanto, podemos extrair algo de bom (e eis que vem de volta o otimismo para nos resgatar). Podemos nos dar conta de quanto amor está faltando e construir a força de vontade para buscar este mesmo amor. Pois é nessas horas que queremos que o universo nos abrace e depois nos deite no colo, fazendo carinho e esperando nossas lágrimas secarem.

Quando as últimas lágrimas escorrerem, que possamos perceber que há uma certa beleza nesse sentimento tão humano que é a tristeza. E logo após, que nos decidamos voltar à busca interminável.





Autora: Érica Marina

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