5 de dezembro de 2012

Um adeus agradecido ao sonho da máquina no tempo


Imagem: Salvador Dalí

Aquilo que dizemos ao outro, logo esquecemos, mas o outro não esquece. Isso é regra, mas em particular posso dizer que tenho uma memória altamente seletiva - para não dizer que sou bem esquecida – e por isso os outros estão sempre a me lembrar e me fazer perceber como minha preocupação muda de foco rapidamente. Não quero discutir o mérito dessa característica para mim mesma, porque tenho particularmente me treinado para ser mais atenta – já que esquecimento é falta de atenção. Entretanto, em termos gerais, a capacidade de esquecimento ou perdão é absolutamente importante para a resiliência[1].

Essa minha auto-observação levada à divagação extrema me faz chegar a conclusões mais universais do que aquelas de interesse próprio. Apesar de que, quando volto a mim mesma, a teoria é bem diferente da prática. Por exemplo, faz tempo que observei que o fim ideal de uma discussão é quando eu chego a duas verdades. Isso em teoria é lindo, porém na prática eu não consigo abandonar a ideia de me fazer entender depois de já ter entendido o próximo.

Voltando à minha divagação anterior, quero inferir que a capacidade que temos de esquecer o que já passou e mudar tão rápido nossas preocupações é fundamental para que exista história. Quantas vezes, não nos pegamos desejando voltar ao tempo para refazer algum dos nossos erros? Entretanto, devemos possivelmente a nossa existência ao fato de que ninguém viabilizou uma máquina do tempo.

É fato de que a Física, quando acrescenta a dimensão velocidade à dimensão espaço-tempo estuda hipoteticamente a possibilidade de viagem no tempo. Mas quero me fazer precisa. Ao pensarmos em buracos de minhoca[2], ainda há uma possibilidade de construção da história, apesar de que o fator tempo será descaracterizado. Quero especificamente me desculpar com o universo e agradecer o fato de que, como usualmente colocado, eu não posso passar uma borracha no meu passado para escrevê-lo novamente.

Mais uma vez vou abstrair minhas características pessoais para análise dessa última afirmação, porque a possibilidade de refazer o tudo o que já fiz mais a minha volatilidade provavelmente não me levariam a lugar nenhum. Quero supor, por outro lado, que todos tenham a capacidade excepcional de voltar ao tempo e refazer o passado. Quando observamos que cada acontecimento é uma soma de vetores diversos, quando percebemos que cada fato depende de gostos, vontades, erros e acertos de diferentes e diversos agentes interconectados, podemos chegar a uma dedução hipotética por extrapolação.

Levando as diferentes tendências ao infinito, se cada um pudesse a qualquer momento aniquilar o que já fez e refazer, estaríamos impossibilitando  o andamento de qualquer processo contínuo. Porque no momento em que erramos, aquilo tem grande relevância. No momento em que algo vai mal, aquele é o foco de nossas preocupações. Contudo, para o equilíbrio do universo que nós conhecemos, podemos sempre esquecer sem voltar atrás. Interessante, mas agora vem a dificuldade de aplicar esse conceito às próximas vezes que eu quiser me condenar pelo erro.

Autora: Érica Marina



[1] resiliência é um conceito psicológico emprestado da física, definido como a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse etc. - sem entrar em surto psicológico.  Fonte: Wikipedia (PT)
[2] Em física, um buraco de verme ou buraco de minhoca é uma característica topológica hipotética do continuum espaço-tempo, a qual é, em essência, um "atalho" através do espaço e do tempo. Um buraco de verme possui ao menos duas "bocas" conectadas a uma única "garganta" ou "tubo". Se o buraco de verme é transponível, a matéria pode "viajar" de uma boca para outra passando através da garganta. Embora não exista evidência direta da existência de buracos de verme, um contínuum espaço-temporal contendo tais entidades costuma ser considerado válido pela relatividade geral. Fonte: Wikipedia(PT)

29 de outubro de 2012

Frívolos sofrimentos


Um antigo provérbio chinês diz que “lamentar aquilo que não temos é desperdiçar aquilo que possuímos”. Mas sofremos hoje em dia por coisas tão fúteis, somos todos tão impulsionados ao materialismo e às aparências! Basta um descuido para se deixar levar. Deveríamos estar aprendendo a usufruir o que tem valor em si a partir das condições materiais que nos são permitidas, mas estamos aprendendo a sofrer pelo que tem preço material, endividando-se inescrupulosamente e abrindo mão do que realmente tem valor.

A vida atualmente é tão cheia de facilidades... é como carregar uma mala de rodinhas.  Acontece que pela facilidade que agora nós temos e antes não tínhamos – porque antes carregávamos o peso de tudo no lombo das costas – temos acumulado tanto e tão desenfreadamente, sem nem entender o porque! Mas apesar de termos conseguido facilitar relativamente nossa vida no dia-a-dia, deixando de perceber o peso de tudo o que carregamos, estamos a nos complicar acrescentando cada vez mais peso.

De repente, no caminho mais à frente, pode ser que nos deparemos com o sofrimento de verdade e tenhamos que colocar a nossa bagagem nas costas para passar por um trecho tortuoso. Nesta hora temos a oportunidade de olharmos as nossas tranqueiras todas e entender o que é importante manter, ou teremos o sofrimento ampliado pelo nosso apego a elas.

Hoje em dia, nesse mundo tão mesquinho, é tão raro se deparar com o sofrimento verdadeiro! Quando eu vejo os olhos de luto, quando eu sei de casos graves de doença, quando eu percebo um coração sofrer, parece que me corta ainda mais o coração. Esse sentimento, destoando do cenário generalizado de aparências e sorrisos falsos, brota de forma cristalina sob uma crosta grossa de coisas sem importância. É ali que eu encontro ser humano e é nesse momento que me volto novamente para Deus.

Enquanto eu condeno a atitude alheia, deveria perceber que o outro só é diferente em mim em grau de futilidade. Quanto tempo desperdiçado com coisas desimportantes! Como é inexpressivo o número de conversas e os momentos que fizeram real diferença na minha vida! Preciso me lembrar sempre de aceitar a vida, as pessoas, as condições que tenho, tudo, enfim, como meros ponto de partida e condições metereológicas da viagem que estou fazendo.

Foto: Tiago Pimentel




Autora: Érica Marina

1 de outubro de 2012

Mais que uma definição de mim


“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. 
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

Sou mais profunda, mais difusa, mais diversa, mais simples e mais complexa que uma definição. Um poço sem fim de defeitos, como qualquer um. Ressalvando-se que sou ética e essencialmente honesta, minha coleção das mesmas características às vezes pendem para a qualidade, às vezes pendem para o defeito. Se bem que esse dualismo de conceito já é bem subjetivo por se só. Uma dúzia de manias, o falar demasiado, os trejeitos pouco centrados, a criatividade louca ou a seriedade exacerbada que não se mistura com ela, mas está contida no mesmo recipiente. A garra e a lassidão. A inteligência calculista e a metafísica artística. Quem sou eu que nem consigo me definir?

Às vezes, anos se passam para eu descobrir que as qualidades que os outros enxergavam em mim e eu admiti verdadeiras são facetas de outra pessoa que ninguém vê. Luto bravamente contra a hipocrisia e o preconceito para extingui-los pela última raiz, pois é muito fácil combater o preconceito comumente discutido, mas é difícil combater as velhas ideias sobre os outros de maneira específica e sobre mim mesma acima de tudo. Não admito a hipocrisia em nenhum gênero e grau, mas às vezes deparo-me atônita comigo mesma. Esses vícios, são como a poeira indesejada dos móveis de casa. Abrimos a janela para entrar as novas ideias, mas devemos sempre nos lembrar de limpar os velhos móveis da nossa mente.

Por que às vezes eu idealizo que eu sou uma boa pessoa? Quando eu queria agradar, eu não fiz amigos – a não ser aqueles que mereciam ter muitos outros amigos... e eu era apenas secundária. Quando eu cansei de agradar, eu conquistei um mundo. Mas sempre e ainda hoje fui coordenada pelo meu egoísmo, como todo mundo continua sendo e cada vez mais. Em quantos décimos do nosso tempo podemos nos abstrair para pensar no outro, sem que nos interesse o que o outro significa para nós mesmos?

Sou mestre em machucar os outros porque conheço assim tão bem o ser humano. Eu me diplomei nisso na época em que o mundo me machucava pela minha própria autoestima ferida... mas guardei o diploma no sótão. Ao invés disso, cataloguei feridas para tentar ajudar aos outros quando eu me visse neles. E só por isso eu acho que sou uma boa pessoa hoje. Às vezes, eu abro uma pasta deste catálogo e me sai um novo texto dolorido.

Sei que o meu exercício de autoconhecimento pode parecer estranho, como também o fato de que eu tento conhecer assim tão bem o ser humano no geral. Porque eu sou uma paleta de cores única, mas pré-existentes. Em nossa época, as pessoas estão em busca de distração – por que distrair-se? distrair-se de quê? Que vazio é esse que elas tentam preencher, que nunca estão em paz consigo mesmas? E por que esse medo de uns instantes a sós? Eu prefiro estar aqui me conhecendo e me preparando para quando vier a dor. Porque o mundo não é feito de só de sorrisos hipócritas como muitas pessoas fazem questão de se mostrar para as outras. A dor não é privilégio de ninguém. Mas como diria o poeta, que é o filósofo Drummond, o sofrimento é opcional.

Autora: Érica Marina

Obra de Salvador Dalí

19 de setembro de 2012

Soneto contemporâneo do amor fugidio


Para encontrar um amor
É preciso não estar procurando
Mas também não estar dificultando
Porque é fugidio, o tal amor

Todo mundo sabe, não sabe?
Ele só vem quando quer
Mas pode ser que ele se acabe
Antes de uma chance qualquer

Hoje em dia, todo mundo ocupado
Mundo virtual, rede social
O nosso tempo já está lotado

E na nossa fração de mundo real
Está ficando de lado o coitado
Já não é mais... o lazer ideal


Autora:  Érica Marina

12 de agosto de 2012

Aniversário

Eu tenho uma ânsia de fazer e viver que eu acho que não cabe na minha vida toda. Irrequieta, sempre, eu me habituei a buscar um novo passo quando eu mal terminava o primeiro. Eu não acredito no ócio e a felicidade contemplativa me estressa se prolongada por muito tempo.

Hoje é o dia do meu aniversário. Em geral, meu processo criativo para textos costuma ser lento. Eu penso, leio, escuto, repenso e guardo em algum lugar. Mas quando sento para escrever, é como se eu levantasse um prédio de infraestrutura pré-fabricada. Em pouco tempo surge a obra como um todo.

Entretanto, estou em uma fasezinha em que as ideias não se encontram para se costurar em algum sentido. Estou levantando um trampolim, mas já planejando um salto. Sendo minuciosa e cuidadosa nas medidas e tendo que segurar meus ímpetos – dialeticamente dividida entre meticulosa e tempestiva.

Eu queria ser mil, tenho planos para muitas vidas. Tenho projetos acumulados que não sabem abrir passagem uns para outros para se organizar em uma ordem de preferência. É isso que eu sinto hoje no dia do meu aniversário.

Por algum motivo Deus quis que neste aniversário minha saúde estivesse mais ou menos abalada. Para que eu dê valor à saúde talvez? Não. Se eu fosse mais velha talvez eu acreditasse que o importante é ter saúde. Espero nunca me sentir velha assim. Porque o que eu acredito hoje é que é importante viver com plenitude, abrir portas e vencer a si mesmo.

Os atletas olímpicos estão aí para mostrar que superar a humanidade de si mesmo pode causar a lesões e contusões. Acredito que a superação de mim mesma e meu desabrochar como ser humano, às vezes esgota minha própria psiquê e abre as portas para uma queda da imunidade – nem meu corpo aguenta. Mas aqui estou eu e sou feliz assim. Sinto-me realizada não pela conquista, mas pelo planejamento contínuo de novas conquistas.

Esta sou eu e assim que me sinto no dia do meu aniversário. Não depressiva, nem mais velha, pois mais velha eu me sinto a cada dia – e cada dia que passou é uma oportunidade de vida. Em vez de amargar por aquilo que passou, eu anseio em ter sempre mais, em viver sempre mais.  No meu aniversário, eu me sinto mais uma vez livre para tomar decisões e ser eu mesma. É meu instante contemplativo a caminho da felicidade. E amanhã, mãos à obra mais uma vez.

Autora: Érica Marina

17 de julho de 2012

Decepções e cravos


Eu queria extrair de mim uma a uma as decepções que tive com as pessoas, como quem extrai manualmente os cravos de acne. Tenho certeza que também não fazem bem para pele.
Talvez eu devesse antes é cuidar da minha alimentação, não engolir atravessado, não engolir qualquer coisa...
E os cravos que sobrassem eu deveria admitir que são inevitáveis. Minha maturidade, entretanto, não me permite entender que as pessoas oferecem o que podem, eu é que crio expectativas.
Isso acontece simplesmente porque é natural para mim esperar dos outros o que eu faria por eles de bom grado. Erro juvenil. Será que um dia eu amadureço e me livro dessa acne?

Autora: Érica Marina

23 de junho de 2012

Não se engane com ninguém


Não peço para atentar-se àqueles que dissimulam, pois esses já nos alertam a princípio. Peço para observar a projeção que você faz sobre as pessoas. Acredite somente no que uma pessoa é, pura e simplesmente. Não imagine, observe, e acredite nisso.

Uma nova pessoa que você conhece tem uma trajetória temporal de vida: acredite que apenas por ela ter conhecido você, isso não justifica uma mudança. Pois paixão é arrebatadora e finita; já o processo de mudança para melhor é demorado e eterno.

Também não se engane projetando o que alguém já foi para o momento presente. Se mudar para melhor é difícil, mudar para pior é muito fácil. Confie, mas vigie. Um conselho geral útil para qualquer relacionamento.



Autora: Érica Marina

30 de abril de 2012

A coerência não é um deus

Existem vários dilemas entre pessoas que não concordam. O mais básico é que não adianta explicar quando o outro não está disposto a entender. Mas há pouco tempo fui apresentada a um dilema bem diferente, quando me reclamou um amigo que ele explicava o seu ponto de vista à esposa e, apesar de ela entender e concordar com sua argumentação, ela encerrava: “mas tudo tem que ser do seu jeito!”.

Isso é de deixar muito racionalista de cabelo em pé: como é que a pessoa entende a minha argumentação bem fundamentada e lógica para suspirar e reclamar ao fim sem nenhuma tentativa de contra-argumentar? Confesso que já perdi a paciência muitas vezes ao me deparar com pessoas que não concordavam sem ao mesmo justificar, enquanto eu, por minha vez, filosofava, citava, matematizava, pragmatizava, e exauria as condições de fundamentar meu ponto de vista.

Eu adoro quem pensa diferente de mim de um jeito inteligente. Minha inteligência absorve e se amplia. A capacidade de ouvir a outro, que argumenta e me leva a qualquer lugar onde eu não chegaria, é algo que eu cultivo com prazer. Mas demorou muito para eu entender a contradição não-fundamentada. Só consegui entender de fato quando percebi que a coerência não é um deus.
Nessa busca de alcançar a verdade do outro independente da minha, esbarrei em muita coisa. Você observa que a verdade do outro pode desconsiderar pontos que para você são relevantes. Isso não é, pois, uma verdade absoluta, pelo menos no meu conceito. Por que meu conceito abstrato de verdade é algo que abarca e explica tudo, inclusive as exceções.

Contudo, partindo do pressuposto que a verdade de cada um é um subconjunto da verdade absoluta, percebemos que cada subconjunto pode ser baseado numa lógica escolhida. Pode acontecer de o ponto de vista de alguém ser absolutamente coerente com as premissas que assumiu. Alguém pode me apresentar a sua verdade de maneira absolutamente lógica sem que eu concorde, pois eu enxergo uma premissa que não foi assumida. E por minha vez eu apresento meu subconjunto da verdade, expondo-o a críticas similares. Mas isso é uma discussão entre duas pessoas que são racionalistas e coerentes.

Pode acontecer, entretanto, que eu seja defrontado por alguém incapaz de construir argumentação que fundamente o seu jeito de sentir. Enquanto eu explico e reexplico o que é óbvio pra mim, o outro não consegue se expor concretamente. Deve ser porque este outro, que é mais artístico no seu sentir, não sabe me explicar que não precisa perseguir a coerência para ser feliz.

Autora: Érica Marina





Este texto foi escrito como um desdobramento explicativo de um parágrafo de “Somos tão sozinhos”, onde se lê: “Outras vezes eu sou extremamente racional e argumento com você o porquê das minhas razões e você, que é mais artístico no seu sentir, não sabe me explicar que você não precisa perseguir a coerência para ser feliz.”

18 de abril de 2012

Não me torre a paciência

"Eu não conheço a chave do sucesso, 
mas a chave do fracasso é querer agradar todo mundo."
(Bill Cosby)

Às vezes eu sou por demais transparente nos defeitos que eu tenho e que eu sei que todo mundo também tem. Certas vezes, meu jeito espontâneo é meio agressivo para esse excesso de verniz social. As pessoas costumam não entender que eu não gosto de melindres e mimimis. Fazer o que, eu sou assim enquanto não conseguir mudar isso em mim. E, olha, que eu tento.
Mas tem tanto lobo em pele de cordeiro por aí....
Ao mesmo tempo eu posso espantar com meu jeito natural de ser eu mesma, tem gente cheia de artimanha por aí fazendo o exatamente o papel de coitadinho ou de legalzinho que eu não quero para mim.
Compre o que quiser e não me torre a paciência.

Autora: Érica Marina

9 de abril de 2012

Somos tão sozinhos


Eu sinto que, mesmo escolhendo alguém para compartilhar uma vida, ainda assim estamos sozinhos. Por mais que tenhamos uma família para nos dar suporte, com ou sem o amor romântico em nossa vida, permanecemos sozinhos. Simplesmente porque somos de natureza individual. E vivemos em uma Torre de Babel: somos essencialmente os mesmos, mas não conseguimos nos comunicar com perfeição. Estamos todos a procurar a felicidade, mas esse conceito em forma prática é extremamente particular.

A forma de você me ensinar, não capta o melhor modo de me fazer aprender. O modo de você expressar amor, não é a melhor forma de eu me sentir amada. E às vezes a forma como eu me expresso também não é bem compreendida. Eu falo uma língua e você fala outra. Às vezes eu sou coerente em tudo o que faço e tenho sempre uma razão para as minhas escolhas e você é exatamente assim, mas com uma perspectiva de vida totalmente diferente. Outras vezes eu sou extremamente racional e argumento com você o porquê das minhas razões e você, que é mais artístico no seu sentir, não sabe me explicar que você não precisa perseguir a coerência para ser feliz.
Um dia estou alegre, feliz e musical e você assim tão triste que se incomoda. E nesse dia eu não consigo lhe tirar dessa tristeza, quando minha alegria passa a brilhar bem menos. Mas em outro dia estou tão triste, e queria tanto estar assim feliz com você em vez de estragar seu dia ao ter que desabafar.
E quando eu quero só desabafar, você me condena. Quando eu quero uma represália, você me perdoa. Se por um lado eu penso que aprendi o suficiente sobre você, você me surpreende. Contudo, como o tempo passa sempre, sou surpreendida por como você não mudou ainda. Por vezes, o que você tinha e eu gostava já mudou. Mas, às vezes, o que eu gostava e ainda há, eu já não gosto mais. Você me conta do seu dia e eu do meu. Porém eu não estou lá e você não está aqui.
Por mais estranho que soe, a boa convivência requer racionalização, na medida que pede empatia. É necessário que você pense no que é o melhor para outro; o que ele quer dizer, já que a sua linguagem é diferente; o que ele pode querer, mas não irá dizer; o que ele precisa, mas não irá pedir. Somos espécies endêmicas de uma ilha com um habitante só. Amar significa fazer a devida conexão com o outro. Isso já não é tão natural, mas é essencial.
É nos momentos que a vida nos dá um susto ou que a saudade aperta, que eu busco você e você me busca. Nesse instante nos entendemos sem palavras nem gestos, e não haverá erro de interpretação. É então que não posso deixar escapar a oportunidade de dizer o quanto eu amo você.

Autora: Érica Marina

9 de março de 2012

Hipócritas


É lamentável que os hipócritas, além de serem maioria na população humana, reinam sobre os ingênuos, de uma forma irreversível... irresistível, eu diria. Quem é que seja honesto o suficiente e não queira se omitir, não consegue convencer o ingênuo que ele não tem que se dobrar à hipocrisia. Quantas pessoas ingenuamente tomam decisões erradas e são infelizes sem perceber o que houve, sem notar que estão se dobrando às exigências de um sistema de expectativas sociais em detrimento da decisão pura e simples.

O hipócrita é aquele que se considera perfeito e justo sem pré-julgamento e que traça uma linha divisória limitando os outros. Porém, quando confrontado, traça também pequenos conjuntos anexos que possam fazer englobar a si mesmo dentro do padrão aceitável. Mas eis que o seu próprio exemplo nunca servirá para incluir os outros também neste padrão. A eles mede com o peso que tira para aliviar sua própria balança.

Mesmo que seja uma pessoa adorável, é detestável enquanto exerce seu papel hipócrita. É limitado em sua mente tanto quanto limita a livre escolha do próximo com criações não-defensáveis, com restrições ilógicas, com preconceitos injustificáveis. Que bom seria a quem se preocupa de fato, livrar as preocupações do próximo deste peso desnecessário! Quem dera poder desconsiderar totalmente a hipocrisia do mundo como se não fosse relevante. É triste ter que às vezes conciliar o que é certo, o que é justo, o que o coração pede – tudo isso – com o que é de se supor escolhido.

Autora: Érica Marina

26 de fevereiro de 2012

Motivação suprema



Somos todos culpados por diversas coisas, temos vícios incorrigíveis, falhamos indesculpavelmente, somos tiranos um dos outros. Movemo-nos aleatoriamente conhecendo a premência da mudança, mas permanecemos os mesmos. Contudo, entre as viciações diversas e as necessidades irreais que criamos, temos nossas misérias sentimentais para trazer sentido à vida.

Nem a monotonia pacífica, nem a satisfação incessante das vontades, se perseguida por toda uma vida, significam de verdade o que quer que seja. Além do desejo intrínseco de ser amado o ser humano busca a redenção. Colocando de lado as ocupações várias de ordem material é o sofrimento em si que o impele ao crescimento.

O que é difícil mesmo ao final, é ser grato às adversidades. Orgulhamo-nos por termos nos saído assim purificados, sem admitirmos justo o burilamento. O processo de superação pode durar muitos anos ou até uma vida e nós somos todos muito imediatistas para considerarmos isto válido. Que possamos então entender que a felicidade durante o processo sofrimento não é paradoxal.

É a ânsia por se livrar dos sentimentos obscuros que materializa a mudança. As privações diversas, perda, o luto, a dor real, as experiências profundas é que transformam a vida e o ser vivente em novo. É a superação das barreiras, a busca pela catarse, que traz a paz e, se bem aproveitada, a felicidade.

A diplomação após a ignorância, o amor após a rejeição, a vitória final após inúmeros fracassos, a paz após a guerra. Mais importante que a aquisição material de entulhos de toda ordem, é a sensação de que se é outro, modificado para melhor. Após o esforço supremo, o mundo precisa ter um outro sentido, pois senão nada teria valido a pena.

No fim, essa realização de sermos melhorados é sempre direcionada para o outro que elegeremos para amar. Nenhuma conquista preenche o nosso vazio, se não tivermos com quem compartilhar. Nossa essência consiste em podermos ser admirados e amados e então qualquer conquista, pois, não se basta sozinha.
Autora: Érica Marina

9 de fevereiro de 2012

Para que serve um Déjà vu


Pensando racionamente, eu não acreditaria em um déjà vu e este texto não é para convencer ninguém de que seja possível acontecer um. Entretanto, diversas vezes já tive esta sensação estranha de que eu estou em um filme conhecido e nada me resta além de acreditar. Ainda sim, eu mesma fico questionando a veracidade da minha sensação.

Não precisaria de nada para eu me convencer de que isto é uma ilusão do cérebro, mas eu me deparo, durante o déjà vu, com a realização das minhas premonições. Aí fica difícil duvidar, porque não há como montar argumentação lógica que justifique sucessivas “coincidências”. Aliás, é pelo fato de eu não acreditar em coincidência, que eu não consigo negar o déjà vu.

E dessa argumentação filosófica que eu fico fazendo comigo mesma para tentar provar o que não é possível, que eu simplesmente aceito o fenômeno como um fato e me pergunto o porquê de sua existência. Para que serve um déjà vu? Se é possível prever antecipadamente o que vai acontecer em um determinado momento, o que estamos a fazer? Estamos aqui como marionetes, acreditando no livre-arbítrio, mas escolhendo decisões já traçadas? O que é o destino? A vida é assim tão fatídica?

O que eu estou fazendo a cada passo meu, se já “estava escrito”, não serve de nada para mim. Significa que eu não estou exercitando minha vontade, não estou aprendendo nada, não é minha culpa meus erros, nem meu mérito os acertos. Isso não faz nenhum sentido. Então como acreditar?

Teve um dia, contudo, que, de repente, eu senti de novo essa sensação de alerta. E me vi caminhar pela primeira vez, mas como se fosse a segunda, para uma situação sem saída: eu sabia como iria reagir a uma determinada situação e sabia que o desdobramento seria desastroso. Como eu sabia? Eu sabia. Aliás, eu nunca vou saber. Diversas vezes até aquele momento, eu me vi em situações de déjà vu como um ratinho na roda. E o fim era sempre o que eu tinha previsto. Mas desta vez foi diferente.

Tomei coragem e não fiz nada de extraordinário, mas também não fiz como meu impulso e minha personalidade ditariam. Segui meus instintos de preservação, fiz diferente e tudo deu certo. Desta experiência, tirei duas conclusões simples, nada brilhantes eu sei. Devia ser um conhecimento subconsciente meu, mas eu trouxe à tona. A primeira é que o déjà vu, seja o que for, venha de onde vier, tem uma função: o alerta. É só isso. Não é o rumo que as coisas devem tomar, mas o que elas podem tomar condicionalmente. A segunda conclusão, é que nós somos muito mais condicionados pelos nossos impulsos e pela nossa personalidade do que por qualquer outro fator determinista. A vida é ação e reação. Ainda bem!

 
 
Autora: Érica Marina
 
Obras: Salvador Dali

6 de fevereiro de 2012

Escolher é sofrido

Quando se fala em escolha por exclusão, subentende-se uma decisão pelo caminho inverso. Mas mesmo que se faça um único movimento de decisão, toda escolha é exclusiva. É por isso que para decidir-se é preciso um desapego,  além de ser criterioso. E, muitas vezes, só critérios abstratos fundamentam a escolha, sem nos dizerem em definitivo o que é certo e o que é errado.



Eventualmente é necessário ser também egoísta, porque não existe opção democrática de fato. Escolher é julgar, abrir mão, usar da arbitrariedade, ser parcial. Quando nenhuma escolha é a certa, a indecisão às vezes é bonita.

 
 
Autora: Érica Marina

20 de janeiro de 2012

Sanidade e loucura

Sou jovem ainda, mas passei por muita coisa na minha vida. Tenho sede de conhecimento e necessidade de exercitar a cabeça. Isso faz o milagre da multiplicação da minha experiência. Cada sentimento, em especial os que eu não gostaria de sentir, é uma estação de filosofia e aprendizado.

É como se cada situação que eu vivesse - ou que pessoas próximas de mim vivessem – pudesse se desdobrar em mil situações parecidas. Porque meu cérebro vai e volta nas suposições, comparações, superposições. Meu pensamento não se aquieta processando cada passo da minha própria vida – ou da vida com quem me preocupo – em formulações teóricas: refazendo os passos e estimando projeções.

As histórias que os outros vivem são absorvidas por mim na minha ânsia de entender e – sinto muito – julgar o ser humano. E cada nova história se acrescenta às outras já conhecidas e à minha própria experiência, ampliada pela minha constante busca do autoconhecimento. Como eu estou constantemente acompanhando meus próprios sentimentos e ações, e partindo do suposto que todo ser humano tem a mesma essência, vou acumulando conhecimento sobre o estereótipo humano como se fosse o conhecimento sobre mim mesma.

Porque não há nada que qualquer outra pessoa seja ou faça que eu não possa na extrapolação extrema viver hipoteticamente.

Quando alguém me traz uma boa ou uma má notícia, meu cérebro dispara involuntariamente as respostas conhecidas típicas de situações parecidas. Porque a história que um casal vive, que uma família vive, que amigos ou conhecidos traçam... é uma repetição particular da história que a humanidade está cansada de viver.

Por mais que sejam únicos para você o dia em que você passou no vestibular, teve um filho, bateu o carro ou perdeu um familiar... a humanidade vive disso. Se por um lado cada evento particular deste deve ser um ponto importante na sua formação, algo a ser vivido e aprendido unicamente; por outro lado, nada se espera de você além do que a gama de reações que os seres humanos tendem a ter. O que torna cada momento de sua vida especial é semelhante ao fato de que as limitadas notas musicais podem formar juntas infinitas combinações harmoniosas.

Às vezes é a má notícia que bate à porta, mas nessa vida eu sempre acreditei que até para o que não tem solução prática, há a solução do conflito: a gente se acostuma a tudo. Só uma coisa de fato me apavora: a loucura.

Enquanto outros discutem se querem viver muito ou pouco, com saúde física, ou mesmo sem, e dizem que o importante é ser feliz... Eu acredito que é fundamental ser lúcido. Sem a sanidade eu não me imagino viver. Porque de repente você já não se enquadra no padrão do que é ser humano, racionalizando, emocionando-se ou agindo como um ser humano agiria. É disso que eu tenho medo: o desconhecido e o imprevisível – sintetizados na loucura.
 
Autora: Érica Marina
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