26 de fevereiro de 2012

Motivação suprema



Somos todos culpados por diversas coisas, temos vícios incorrigíveis, falhamos indesculpavelmente, somos tiranos um dos outros. Movemo-nos aleatoriamente conhecendo a premência da mudança, mas permanecemos os mesmos. Contudo, entre as viciações diversas e as necessidades irreais que criamos, temos nossas misérias sentimentais para trazer sentido à vida.

Nem a monotonia pacífica, nem a satisfação incessante das vontades, se perseguida por toda uma vida, significam de verdade o que quer que seja. Além do desejo intrínseco de ser amado o ser humano busca a redenção. Colocando de lado as ocupações várias de ordem material é o sofrimento em si que o impele ao crescimento.

O que é difícil mesmo ao final, é ser grato às adversidades. Orgulhamo-nos por termos nos saído assim purificados, sem admitirmos justo o burilamento. O processo de superação pode durar muitos anos ou até uma vida e nós somos todos muito imediatistas para considerarmos isto válido. Que possamos então entender que a felicidade durante o processo sofrimento não é paradoxal.

É a ânsia por se livrar dos sentimentos obscuros que materializa a mudança. As privações diversas, perda, o luto, a dor real, as experiências profundas é que transformam a vida e o ser vivente em novo. É a superação das barreiras, a busca pela catarse, que traz a paz e, se bem aproveitada, a felicidade.

A diplomação após a ignorância, o amor após a rejeição, a vitória final após inúmeros fracassos, a paz após a guerra. Mais importante que a aquisição material de entulhos de toda ordem, é a sensação de que se é outro, modificado para melhor. Após o esforço supremo, o mundo precisa ter um outro sentido, pois senão nada teria valido a pena.

No fim, essa realização de sermos melhorados é sempre direcionada para o outro que elegeremos para amar. Nenhuma conquista preenche o nosso vazio, se não tivermos com quem compartilhar. Nossa essência consiste em podermos ser admirados e amados e então qualquer conquista, pois, não se basta sozinha.
Autora: Érica Marina

9 de fevereiro de 2012

Para que serve um Déjà vu


Pensando racionamente, eu não acreditaria em um déjà vu e este texto não é para convencer ninguém de que seja possível acontecer um. Entretanto, diversas vezes já tive esta sensação estranha de que eu estou em um filme conhecido e nada me resta além de acreditar. Ainda sim, eu mesma fico questionando a veracidade da minha sensação.

Não precisaria de nada para eu me convencer de que isto é uma ilusão do cérebro, mas eu me deparo, durante o déjà vu, com a realização das minhas premonições. Aí fica difícil duvidar, porque não há como montar argumentação lógica que justifique sucessivas “coincidências”. Aliás, é pelo fato de eu não acreditar em coincidência, que eu não consigo negar o déjà vu.

E dessa argumentação filosófica que eu fico fazendo comigo mesma para tentar provar o que não é possível, que eu simplesmente aceito o fenômeno como um fato e me pergunto o porquê de sua existência. Para que serve um déjà vu? Se é possível prever antecipadamente o que vai acontecer em um determinado momento, o que estamos a fazer? Estamos aqui como marionetes, acreditando no livre-arbítrio, mas escolhendo decisões já traçadas? O que é o destino? A vida é assim tão fatídica?

O que eu estou fazendo a cada passo meu, se já “estava escrito”, não serve de nada para mim. Significa que eu não estou exercitando minha vontade, não estou aprendendo nada, não é minha culpa meus erros, nem meu mérito os acertos. Isso não faz nenhum sentido. Então como acreditar?

Teve um dia, contudo, que, de repente, eu senti de novo essa sensação de alerta. E me vi caminhar pela primeira vez, mas como se fosse a segunda, para uma situação sem saída: eu sabia como iria reagir a uma determinada situação e sabia que o desdobramento seria desastroso. Como eu sabia? Eu sabia. Aliás, eu nunca vou saber. Diversas vezes até aquele momento, eu me vi em situações de déjà vu como um ratinho na roda. E o fim era sempre o que eu tinha previsto. Mas desta vez foi diferente.

Tomei coragem e não fiz nada de extraordinário, mas também não fiz como meu impulso e minha personalidade ditariam. Segui meus instintos de preservação, fiz diferente e tudo deu certo. Desta experiência, tirei duas conclusões simples, nada brilhantes eu sei. Devia ser um conhecimento subconsciente meu, mas eu trouxe à tona. A primeira é que o déjà vu, seja o que for, venha de onde vier, tem uma função: o alerta. É só isso. Não é o rumo que as coisas devem tomar, mas o que elas podem tomar condicionalmente. A segunda conclusão, é que nós somos muito mais condicionados pelos nossos impulsos e pela nossa personalidade do que por qualquer outro fator determinista. A vida é ação e reação. Ainda bem!

 
 
Autora: Érica Marina
 
Obras: Salvador Dali

6 de fevereiro de 2012

Escolher é sofrido

Quando se fala em escolha por exclusão, subentende-se uma decisão pelo caminho inverso. Mas mesmo que se faça um único movimento de decisão, toda escolha é exclusiva. É por isso que para decidir-se é preciso um desapego,  além de ser criterioso. E, muitas vezes, só critérios abstratos fundamentam a escolha, sem nos dizerem em definitivo o que é certo e o que é errado.



Eventualmente é necessário ser também egoísta, porque não existe opção democrática de fato. Escolher é julgar, abrir mão, usar da arbitrariedade, ser parcial. Quando nenhuma escolha é a certa, a indecisão às vezes é bonita.

 
 
Autora: Érica Marina
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