30 de abril de 2012

A coerência não é um deus

Existem vários dilemas entre pessoas que não concordam. O mais básico é que não adianta explicar quando o outro não está disposto a entender. Mas há pouco tempo fui apresentada a um dilema bem diferente, quando me reclamou um amigo que ele explicava o seu ponto de vista à esposa e, apesar de ela entender e concordar com sua argumentação, ela encerrava: “mas tudo tem que ser do seu jeito!”.

Isso é de deixar muito racionalista de cabelo em pé: como é que a pessoa entende a minha argumentação bem fundamentada e lógica para suspirar e reclamar ao fim sem nenhuma tentativa de contra-argumentar? Confesso que já perdi a paciência muitas vezes ao me deparar com pessoas que não concordavam sem ao mesmo justificar, enquanto eu, por minha vez, filosofava, citava, matematizava, pragmatizava, e exauria as condições de fundamentar meu ponto de vista.

Eu adoro quem pensa diferente de mim de um jeito inteligente. Minha inteligência absorve e se amplia. A capacidade de ouvir a outro, que argumenta e me leva a qualquer lugar onde eu não chegaria, é algo que eu cultivo com prazer. Mas demorou muito para eu entender a contradição não-fundamentada. Só consegui entender de fato quando percebi que a coerência não é um deus.
Nessa busca de alcançar a verdade do outro independente da minha, esbarrei em muita coisa. Você observa que a verdade do outro pode desconsiderar pontos que para você são relevantes. Isso não é, pois, uma verdade absoluta, pelo menos no meu conceito. Por que meu conceito abstrato de verdade é algo que abarca e explica tudo, inclusive as exceções.

Contudo, partindo do pressuposto que a verdade de cada um é um subconjunto da verdade absoluta, percebemos que cada subconjunto pode ser baseado numa lógica escolhida. Pode acontecer de o ponto de vista de alguém ser absolutamente coerente com as premissas que assumiu. Alguém pode me apresentar a sua verdade de maneira absolutamente lógica sem que eu concorde, pois eu enxergo uma premissa que não foi assumida. E por minha vez eu apresento meu subconjunto da verdade, expondo-o a críticas similares. Mas isso é uma discussão entre duas pessoas que são racionalistas e coerentes.

Pode acontecer, entretanto, que eu seja defrontado por alguém incapaz de construir argumentação que fundamente o seu jeito de sentir. Enquanto eu explico e reexplico o que é óbvio pra mim, o outro não consegue se expor concretamente. Deve ser porque este outro, que é mais artístico no seu sentir, não sabe me explicar que não precisa perseguir a coerência para ser feliz.

Autora: Érica Marina





Este texto foi escrito como um desdobramento explicativo de um parágrafo de “Somos tão sozinhos”, onde se lê: “Outras vezes eu sou extremamente racional e argumento com você o porquê das minhas razões e você, que é mais artístico no seu sentir, não sabe me explicar que você não precisa perseguir a coerência para ser feliz.”

18 de abril de 2012

Não me torre a paciência

"Eu não conheço a chave do sucesso, 
mas a chave do fracasso é querer agradar todo mundo."
(Bill Cosby)

Às vezes eu sou por demais transparente nos defeitos que eu tenho e que eu sei que todo mundo também tem. Certas vezes, meu jeito espontâneo é meio agressivo para esse excesso de verniz social. As pessoas costumam não entender que eu não gosto de melindres e mimimis. Fazer o que, eu sou assim enquanto não conseguir mudar isso em mim. E, olha, que eu tento.
Mas tem tanto lobo em pele de cordeiro por aí....
Ao mesmo tempo eu posso espantar com meu jeito natural de ser eu mesma, tem gente cheia de artimanha por aí fazendo o exatamente o papel de coitadinho ou de legalzinho que eu não quero para mim.
Compre o que quiser e não me torre a paciência.

Autora: Érica Marina

9 de abril de 2012

Somos tão sozinhos


Eu sinto que, mesmo escolhendo alguém para compartilhar uma vida, ainda assim estamos sozinhos. Por mais que tenhamos uma família para nos dar suporte, com ou sem o amor romântico em nossa vida, permanecemos sozinhos. Simplesmente porque somos de natureza individual. E vivemos em uma Torre de Babel: somos essencialmente os mesmos, mas não conseguimos nos comunicar com perfeição. Estamos todos a procurar a felicidade, mas esse conceito em forma prática é extremamente particular.

A forma de você me ensinar, não capta o melhor modo de me fazer aprender. O modo de você expressar amor, não é a melhor forma de eu me sentir amada. E às vezes a forma como eu me expresso também não é bem compreendida. Eu falo uma língua e você fala outra. Às vezes eu sou coerente em tudo o que faço e tenho sempre uma razão para as minhas escolhas e você é exatamente assim, mas com uma perspectiva de vida totalmente diferente. Outras vezes eu sou extremamente racional e argumento com você o porquê das minhas razões e você, que é mais artístico no seu sentir, não sabe me explicar que você não precisa perseguir a coerência para ser feliz.
Um dia estou alegre, feliz e musical e você assim tão triste que se incomoda. E nesse dia eu não consigo lhe tirar dessa tristeza, quando minha alegria passa a brilhar bem menos. Mas em outro dia estou tão triste, e queria tanto estar assim feliz com você em vez de estragar seu dia ao ter que desabafar.
E quando eu quero só desabafar, você me condena. Quando eu quero uma represália, você me perdoa. Se por um lado eu penso que aprendi o suficiente sobre você, você me surpreende. Contudo, como o tempo passa sempre, sou surpreendida por como você não mudou ainda. Por vezes, o que você tinha e eu gostava já mudou. Mas, às vezes, o que eu gostava e ainda há, eu já não gosto mais. Você me conta do seu dia e eu do meu. Porém eu não estou lá e você não está aqui.
Por mais estranho que soe, a boa convivência requer racionalização, na medida que pede empatia. É necessário que você pense no que é o melhor para outro; o que ele quer dizer, já que a sua linguagem é diferente; o que ele pode querer, mas não irá dizer; o que ele precisa, mas não irá pedir. Somos espécies endêmicas de uma ilha com um habitante só. Amar significa fazer a devida conexão com o outro. Isso já não é tão natural, mas é essencial.
É nos momentos que a vida nos dá um susto ou que a saudade aperta, que eu busco você e você me busca. Nesse instante nos entendemos sem palavras nem gestos, e não haverá erro de interpretação. É então que não posso deixar escapar a oportunidade de dizer o quanto eu amo você.

Autora: Érica Marina
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