29 de outubro de 2012

Frívolos sofrimentos


Um antigo provérbio chinês diz que “lamentar aquilo que não temos é desperdiçar aquilo que possuímos”. Mas sofremos hoje em dia por coisas tão fúteis, somos todos tão impulsionados ao materialismo e às aparências! Basta um descuido para se deixar levar. Deveríamos estar aprendendo a usufruir o que tem valor em si a partir das condições materiais que nos são permitidas, mas estamos aprendendo a sofrer pelo que tem preço material, endividando-se inescrupulosamente e abrindo mão do que realmente tem valor.

A vida atualmente é tão cheia de facilidades... é como carregar uma mala de rodinhas.  Acontece que pela facilidade que agora nós temos e antes não tínhamos – porque antes carregávamos o peso de tudo no lombo das costas – temos acumulado tanto e tão desenfreadamente, sem nem entender o porque! Mas apesar de termos conseguido facilitar relativamente nossa vida no dia-a-dia, deixando de perceber o peso de tudo o que carregamos, estamos a nos complicar acrescentando cada vez mais peso.

De repente, no caminho mais à frente, pode ser que nos deparemos com o sofrimento de verdade e tenhamos que colocar a nossa bagagem nas costas para passar por um trecho tortuoso. Nesta hora temos a oportunidade de olharmos as nossas tranqueiras todas e entender o que é importante manter, ou teremos o sofrimento ampliado pelo nosso apego a elas.

Hoje em dia, nesse mundo tão mesquinho, é tão raro se deparar com o sofrimento verdadeiro! Quando eu vejo os olhos de luto, quando eu sei de casos graves de doença, quando eu percebo um coração sofrer, parece que me corta ainda mais o coração. Esse sentimento, destoando do cenário generalizado de aparências e sorrisos falsos, brota de forma cristalina sob uma crosta grossa de coisas sem importância. É ali que eu encontro ser humano e é nesse momento que me volto novamente para Deus.

Enquanto eu condeno a atitude alheia, deveria perceber que o outro só é diferente em mim em grau de futilidade. Quanto tempo desperdiçado com coisas desimportantes! Como é inexpressivo o número de conversas e os momentos que fizeram real diferença na minha vida! Preciso me lembrar sempre de aceitar a vida, as pessoas, as condições que tenho, tudo, enfim, como meros ponto de partida e condições metereológicas da viagem que estou fazendo.

Foto: Tiago Pimentel




Autora: Érica Marina

1 de outubro de 2012

Mais que uma definição de mim


“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. 
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

Sou mais profunda, mais difusa, mais diversa, mais simples e mais complexa que uma definição. Um poço sem fim de defeitos, como qualquer um. Ressalvando-se que sou ética e essencialmente honesta, minha coleção das mesmas características às vezes pendem para a qualidade, às vezes pendem para o defeito. Se bem que esse dualismo de conceito já é bem subjetivo por se só. Uma dúzia de manias, o falar demasiado, os trejeitos pouco centrados, a criatividade louca ou a seriedade exacerbada que não se mistura com ela, mas está contida no mesmo recipiente. A garra e a lassidão. A inteligência calculista e a metafísica artística. Quem sou eu que nem consigo me definir?

Às vezes, anos se passam para eu descobrir que as qualidades que os outros enxergavam em mim e eu admiti verdadeiras são facetas de outra pessoa que ninguém vê. Luto bravamente contra a hipocrisia e o preconceito para extingui-los pela última raiz, pois é muito fácil combater o preconceito comumente discutido, mas é difícil combater as velhas ideias sobre os outros de maneira específica e sobre mim mesma acima de tudo. Não admito a hipocrisia em nenhum gênero e grau, mas às vezes deparo-me atônita comigo mesma. Esses vícios, são como a poeira indesejada dos móveis de casa. Abrimos a janela para entrar as novas ideias, mas devemos sempre nos lembrar de limpar os velhos móveis da nossa mente.

Por que às vezes eu idealizo que eu sou uma boa pessoa? Quando eu queria agradar, eu não fiz amigos – a não ser aqueles que mereciam ter muitos outros amigos... e eu era apenas secundária. Quando eu cansei de agradar, eu conquistei um mundo. Mas sempre e ainda hoje fui coordenada pelo meu egoísmo, como todo mundo continua sendo e cada vez mais. Em quantos décimos do nosso tempo podemos nos abstrair para pensar no outro, sem que nos interesse o que o outro significa para nós mesmos?

Sou mestre em machucar os outros porque conheço assim tão bem o ser humano. Eu me diplomei nisso na época em que o mundo me machucava pela minha própria autoestima ferida... mas guardei o diploma no sótão. Ao invés disso, cataloguei feridas para tentar ajudar aos outros quando eu me visse neles. E só por isso eu acho que sou uma boa pessoa hoje. Às vezes, eu abro uma pasta deste catálogo e me sai um novo texto dolorido.

Sei que o meu exercício de autoconhecimento pode parecer estranho, como também o fato de que eu tento conhecer assim tão bem o ser humano no geral. Porque eu sou uma paleta de cores única, mas pré-existentes. Em nossa época, as pessoas estão em busca de distração – por que distrair-se? distrair-se de quê? Que vazio é esse que elas tentam preencher, que nunca estão em paz consigo mesmas? E por que esse medo de uns instantes a sós? Eu prefiro estar aqui me conhecendo e me preparando para quando vier a dor. Porque o mundo não é feito de só de sorrisos hipócritas como muitas pessoas fazem questão de se mostrar para as outras. A dor não é privilégio de ninguém. Mas como diria o poeta, que é o filósofo Drummond, o sofrimento é opcional.

Autora: Érica Marina

Obra de Salvador Dalí

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