5 de dezembro de 2012

Um adeus agradecido ao sonho da máquina no tempo


Imagem: Salvador Dalí

Aquilo que dizemos ao outro, logo esquecemos, mas o outro não esquece. Isso é regra, mas em particular posso dizer que tenho uma memória altamente seletiva - para não dizer que sou bem esquecida – e por isso os outros estão sempre a me lembrar e me fazer perceber como minha preocupação muda de foco rapidamente. Não quero discutir o mérito dessa característica para mim mesma, porque tenho particularmente me treinado para ser mais atenta – já que esquecimento é falta de atenção. Entretanto, em termos gerais, a capacidade de esquecimento ou perdão é absolutamente importante para a resiliência[1].

Essa minha auto-observação levada à divagação extrema me faz chegar a conclusões mais universais do que aquelas de interesse próprio. Apesar de que, quando volto a mim mesma, a teoria é bem diferente da prática. Por exemplo, faz tempo que observei que o fim ideal de uma discussão é quando eu chego a duas verdades. Isso em teoria é lindo, porém na prática eu não consigo abandonar a ideia de me fazer entender depois de já ter entendido o próximo.

Voltando à minha divagação anterior, quero inferir que a capacidade que temos de esquecer o que já passou e mudar tão rápido nossas preocupações é fundamental para que exista história. Quantas vezes, não nos pegamos desejando voltar ao tempo para refazer algum dos nossos erros? Entretanto, devemos possivelmente a nossa existência ao fato de que ninguém viabilizou uma máquina do tempo.

É fato de que a Física, quando acrescenta a dimensão velocidade à dimensão espaço-tempo estuda hipoteticamente a possibilidade de viagem no tempo. Mas quero me fazer precisa. Ao pensarmos em buracos de minhoca[2], ainda há uma possibilidade de construção da história, apesar de que o fator tempo será descaracterizado. Quero especificamente me desculpar com o universo e agradecer o fato de que, como usualmente colocado, eu não posso passar uma borracha no meu passado para escrevê-lo novamente.

Mais uma vez vou abstrair minhas características pessoais para análise dessa última afirmação, porque a possibilidade de refazer o tudo o que já fiz mais a minha volatilidade provavelmente não me levariam a lugar nenhum. Quero supor, por outro lado, que todos tenham a capacidade excepcional de voltar ao tempo e refazer o passado. Quando observamos que cada acontecimento é uma soma de vetores diversos, quando percebemos que cada fato depende de gostos, vontades, erros e acertos de diferentes e diversos agentes interconectados, podemos chegar a uma dedução hipotética por extrapolação.

Levando as diferentes tendências ao infinito, se cada um pudesse a qualquer momento aniquilar o que já fez e refazer, estaríamos impossibilitando  o andamento de qualquer processo contínuo. Porque no momento em que erramos, aquilo tem grande relevância. No momento em que algo vai mal, aquele é o foco de nossas preocupações. Contudo, para o equilíbrio do universo que nós conhecemos, podemos sempre esquecer sem voltar atrás. Interessante, mas agora vem a dificuldade de aplicar esse conceito às próximas vezes que eu quiser me condenar pelo erro.

Autora: Érica Marina



[1] resiliência é um conceito psicológico emprestado da física, definido como a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse etc. - sem entrar em surto psicológico.  Fonte: Wikipedia (PT)
[2] Em física, um buraco de verme ou buraco de minhoca é uma característica topológica hipotética do continuum espaço-tempo, a qual é, em essência, um "atalho" através do espaço e do tempo. Um buraco de verme possui ao menos duas "bocas" conectadas a uma única "garganta" ou "tubo". Se o buraco de verme é transponível, a matéria pode "viajar" de uma boca para outra passando através da garganta. Embora não exista evidência direta da existência de buracos de verme, um contínuum espaço-temporal contendo tais entidades costuma ser considerado válido pela relatividade geral. Fonte: Wikipedia(PT)

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