10 de dezembro de 2013

Um bando de braços curtos

Desenho: Fabrício Moraes

Chamamos de "braço curto", coloquialmente, aquelas pessoas que não alcançam nada que não esteja bem próximo, que não fazem nenhum esforço de ultrapassar a zona de conforto. Lidam com aquilo que está em suas mãos e não fazem mais do que isso. Infelizmente, eu me sinto cercada de pessoas assim e sinto também uma tendência de piora.

Não é de hoje que o funcionalismo público brasileiro tem a fama de "braço curto". Talvez porque aqueles que buscaram o emprego público ao longo das últimas décadas estavam em busca conforto do bom salário com estabilidade e sem grande esforço. De qualquer forma, pelo salário e pela estabilidade, eu vejo a concorrência em concursos públicos crescer e de certa forma acaba selecionando candidatos mais bem empenhados. Não sei se no longo prazo esse empenho irá decair  por acomodação ou se contaremos com um pouco mais de eficiência no funcionalismo. É esperar para observar os efeitos correlacionados dos dois movimentos.

Por outro lado, na iniciativa privada, o fenômeno do bracinho curto está dominando a maioria das empresas. Sabemos todos que o "custo Brasil" é caro, então as empresas têm pago tão pouco quanto puderem. E isso é tão geral, que a mão-de-obra não tem escapatória. Daí surgem dois desdobramentos na contratação. O primeiro é contratar pessoas com capacidade inferior ao que o bom desempenho do cargo exige. O segundo é contratar outras que até têm essa competência, mas logo perceberão que o trabalho e as dores de cabeça que têm (para não dizer perda de saúde no geral) não estão pagando o salário que ganham.

Aí, para aliviar um pouco do excesso da carga de trabalho, até mesmo os competentes se restringem. Ou porque não dariam conta de desfiar todos os problemas que encaram no dia-a-dia, ou simplesmente porque ganham muito mal para isso. Falo também por experiência própria, porque tendo competência e preocupação em ajudar e resolver o problema dos outros, não dei conta do estresse e pedi demissão. Deixei a empresa como outras pessoas competentes deixarão. Ou então aprenderão com os mais velhos de casa que o problema não é deles.

O grande drama é que no nosso cotidiano de pessoa física, estamos o tempo todo em contato com essas empresas e instituições. Temos  um monte de atividades que são terceirizadas e dependemos dessas pessoas incompetentes ou desmotivadas. 

Quando não, as grandes empresas colocam o Call Center como única forma de resolução dos problemas que elas mesmas nos criaram. Os centros de telefonia, na minha opinião, simplesmente não deveriam existir. Lá, você fala com alguém que não tem alçada para resolver o seu problema e dará uma informação que consta em sistema que você já tem ou é incorreta. E o pior: esse atendente nunca mais irá falar com você. Isso o desobriga de ser proativo ou realmente procurar lhe ajudar.

A solução para o cliente desamparado é registrar de reclamações de alguma forma e esperar ser ouvido. Porém, muitas vezes, nem mesmo a Ouvidoria da empresa ou o órgão regulador competente irão resolver alguma coisa. Já aconteceu comigo que depois várias reclamações em uma empresa, passei ao órgão regulador. Este, após o prazo solicitado me informou que não obteve resposta e perguntou se eu queria "reenviar a reclamação"! Para quem recorrer nesse caso? O problema é que a própria Justiça em si está assentada como todo o resto da estrutura  do país sobre um capital humano de bracinhos curtos.

No fim, cada um de nós brasileiros estamos tendo transtornos absurdos para conseguir simples serviços e esses mesmos brasileiros estressados vão se sentar na cadeira de trabalho, sem ânimo de resolver outros problemas além dos seus. É um trágico ciclo vicioso. Juntamente com a corrupção e a desonestidade, é mais uma mazela intrínseca da nossa sociedade que não vejo ponto de partida para resolução.

Particularmente, o que cada um pode fazer para ser uma gota d'água de proatividade no mar de problemas, é buscar ser um profissional competente onde quer que esteja. Fazer seu trabalho direito, ou abandoná-lo em busca de outro que realize melhor. Existe, sim, saída melhor para a empresa que lhe explora e lhe dá mais problemas do que você pode resolver. Tenha um plano de ação, vá estudar, vá fazer o que goste. Mas enquanto estiver lá, não continue na malemolência pois estará prejudicando muitos outros.

Estou em um nível em que toda vez que sou bem atendida tenho uma grande surpresa e enfaticamente elogio o atendimento a fim de dar minha contribuição para que a outra pessoa continue nessa linha. Se todos trabalhassem corretamente, com certeza sobraria mais tempo para crescermos como nação.

Autora: Érica Marina

30 de outubro de 2013

Meu apego ao livro físico


Disse um sábio uma vez, que o amor não resiste a explicações. Mas relembrar o primeiro encontro é sempre um motivo de encantamento. Sou da época em que não era preciso me referir ao livro físico acrescentando um adjetivo: um livro era um livro. Após adquirir o domínio difícil das sílabas e das palavras, na infância alfabetizada eu lia um livro por dia, quando os livros eram assim um apanhado estreito de papéis.

Se  o dever da escola se estendia, ele me atrapalhava a leitura. "Primeiro o dever, depois a diversão", me reprimiam os adultos deixando o livro para depois. Após ler tudo o que havia para minha idade, a bibliotecária me permitia avançar a classificação... o que que tem?! Lógico que no fim do dia eu ia brincar na rua de brincadeiras que hoje as crianças não conhecem... A imaginação exercitada deixava tudo mais divertido.

Quando alguém me fala que o livro será descartado, tenho duas linhas de raciocínios: uma mais centrada e outra mais sentimental. Elaboro comigo que a televisão não substituiu o rádio e, portanto, uma nova tecnologia não precisa substituir a anterior... e outros argumentos raciocinados nesse esquema.

Mas, de verdade, quando me dizem que o tablet e os e-books, com sua estrangeirisse imposta desde o nome irá substituir o livro físico, eu penso: esse povo está maluco...! Eu leio, sim, em PDF, no meu tablet, quando não há outra opção e o assunto vence o incômodo da luz emitente contra meus olhos e do toque artificial para virar páginas.

A primeira coisa que penso, de fato, é: esse povo que diz que o virtual substituirá os tradicionais livros não sabe o que é ler! Não conhece o kama sutra da leitura: em que a gente alterna cadeira, poltrona, cama e sofá, muda de posição diversas vezes, mas não consegue largar o livro! Esse deve ser o mesmo povo que não lê mais de vinte páginas por interesse próprio!...

Ah, não me entendam mal, me desculpem o mal juízo! Esse amor é caso sério e para a vida toda. Quando vejo a estatística de venda de e-books, eu compreendo que estou enganada. E quando alguém me manda um livro grande para ler em PDF, eu tenho saudades da minha professora de Sociologia na faculdade: que reunia um calhamaço de textos para xerox, sobre o qual nos debruçaríamos para abrirmos um pouco mais este nosso universo interno.

Eu faço uso intenso da internet e dos meios de comunicação eletrônicos, com certeza. Apesar da opinião retrógrada, sou pró-informatização. E escrevo meu texto aqui para disponibilizar de maneira fantástica a quem quer que seja. Mas... eu gostaria de reunir esses escritos em um livro um dia. No fim deixo a pretensão de lado, pois seria considerar que este apanhado de textos sem coesão seriam de alguma valia.

Alguns livros são para ler e reler em espírito de meditação. São livros difíceis e surpreendentes, que só se entende melhor após algumas releituras. Eu fico impressionada com a capacidade intelectual de quem pôde escrevê-los. Às vezes, penso que essa intelectualidade é uma técnica multicentenária a ser perdida... Se for, eu serei provavelmente uma colecionadora dessa raridade.

Autora: Érica Marina

25 de setembro de 2013

Tempo para meditar


Quando eu era criança, eu tinha um mundo à parte e era capaz de passar um dia inteiro sozinha com minha própria imaginação. Certas vezes, porém, eu apenas contemplava. Ficava olhando a paisagem, pessoas passando... É interessante olhar pessoas sem julgar, com olhos de criança. Mas essas capacidades, eu perdi. Conforme crescemos, aprendemos com todos os outros que não fazer nada é tedioso. Nos ensinam a até que é pernicioso! "Cabeça vazia é oficina...", será que está mesmo vazia ou cheia de porcaria?

Eu posso inferir que nós desaprendemos a meditar. E isso é ainda pior quando passamos por uma geração que esquenta a comida no micro-ondas em 30 segundos e está conectado à internet o tempo todo. A noção de tempo se acelera e não nos permitimos nos desligar em nenhum momento. Ficamos impacientes por motivo de qualquer tempo de espera e andamos apressados sem nem sempre ter necessidade.

Há alguns anos atrás, posso lembrar bem, quando ligávamos para a casa ou trabalho de uma pessoa e ela não atendida, pensávamos que ela poderia ter saído ou poderia estar ocupada. Depois, o celular surgiu como fator de controle e estresse, mesmo na época em que só fazia chamadas. "Liguei até no celular e ele não atendeu! Será que aconteceu alguma coisa!?!" Hoje, estamos dependentes da extrema conectividade com o outro e da comunicação instantânea. Perturbamos ao outro a qualquer momento e não entendemos que ele poderia estar ocupado. Estamos sujeitos a uma avalanche de inconveniências a qualquer horário. Se meu celular com wi-fi está ligado na minha casa onde a rede é sem fio e fica ligado à noite pra servir também de despertador, posso receber e-mails spams às  1:30h da madrugada.

Não vou jogar meu celular fora, pois ele é um avanço tecnológico muito útil por ser várias ferramentas em um só aparelho. Mas comprei um despertador à moda antiga. Na hora do meu sono, desculpa, eu estou ocupada! Tenho procurado desacelerar e meditar como quando eu era criança. A minha noção de tempo não precisa ser a do relógio – que aliás não uso no pulso para não me escravizar a olhar o mostrador a todo instante.


Em vez de perder tempo esperando em filas, consultórios médicos etc., tenho procurado ganhar tempo com uma leitura edificante. Estou assim, dois passos para a  frente, um para trás, aprendendo a não sofrer com o que foge ao meu controle e entender que quem pode atrasar minha vida sou eu mesma... Tenho tentado desconstruir a minha aptidão a pensar demais e gastar "muito fosfato" à toa. Devo deixar isso para momentos e assuntos realmente importantes. É só me preparar  para isso. Como diz Alberto Caeiro, "há metafísica bastante em não pensar em nada". Quem sabe um dia eu chego lá! Não que eu abra mão de tudo o que aprendi, mas tenho que me permitir o desapego de todas as minhas convicções para aprender um pouco mais.

Autora: Érica Marina

16 de julho de 2013

O cliente tem sempre razão?

Imagem:  Veja SP

Eu não tenho dúvidas quanto ao lema do bom atendimento, eu tenho uma única certeza: não só a generalização é falsa, como o cliente muitas vezes perde absurdamente a razão. Por isso, a empresa deve se autoavaliar antes de tomar partido. Os prazos são cumpridos? O serviço é de qualidade? Há respeito ao ser humano que está no papel de cliente? A rede de atendimento e as diferentes etapas do serviço prestado são coesas? Antes de dizer que o cliente tem razão simplesmente para  escapar de uma autoavaliação, a empresa deve confrontar as críticas gerais ou pontuais com a qualidade do serviço que presta. É uma questão de gestão estratégica.

Com a disseminação dessa ideia do “ter sempre razão”, os empregos de atendimento ao cliente têm como característica a alta rotatividade e o desgaste emocional. As pessoas se apoderam do título de cliente para destratar os que estão lhe prestando atendimento, sem se colocar na posição do outro, que está se submetendo a isso ao longo do dia, dia após dia. Aquele que atende ao cliente não pode responder à altura os disparates que lhe são direcionados, absorvendo ao longo do tempo todo o tipo de mal humor e sofrendo humilhação muitas vezes. Não podemos deixar de sublinhar que a rotatividade no emprego não deixa de ser um desperdício para as empresas, que deveriam criar estratégias de compensação para este desgaste dos seus colaboradores.

A filosofia deve mudar: o cliente tem seus direitos, sim; temos que ouvi-lo e procurar atendê-lo, sempre, com certeza! Mas devemos criar uma rede de proteção ao colaborador. Clientes que causam problema devem ter um tratamento diferenciado, não porque eles merecem a atenção que querem conquistar aos gritos e ameaças ou com dissabores aos que têm por obrigação servi-los. Devem ser tratados com diferença em respeito os que não merecem suas agressões. A empresa deve permitir direcionar o cliente aos superiores, para ele sentir que não tem mais a quem recorrer quando seus caprichos não são justificados. E poderia criar meios de notificá-lo formalmente quanto aos seus direitos quando o que ele exige passa da linha do razoável, poupando o colaborador de muitos embaraços.


 Antes de tratar como dignos de serem ouvidos todos os impropérios possíveis de serem ditos pelo “cliente” – que se apropria do título como se fosse uma arma – a empresa deve avaliar como está a calibragem da sua balança. Há um razoável equilíbrio entre a satisfação dos colaboradores (internos) e  dos clientes (externos)? Deixando de lado a estratégia comercial e as preocupações capitalistas imediatistas, estamos falando de seres humanos de qualquer um dos lados. Não podemos buscar um índice de satisfação do cliente sem observarmos a qualidade de vida daquele que presta serviço. Está correto: qualidade de vida, por que um trabalho estressante está associado à, no mínimo, perda de saúde.

Autora: Érica Marina

29 de maio de 2013

Sonhos colecionáveis

Nós vivemos em um mundo que as pessoas estão cheias de desejos e com pouquíssima boa vontade. Mas o ideal não é colecionar sonhos, nem construir paradigmas, mas viver metas. Transformar o que é apenas sonho em alvo e criar planos de ação para daqui ... muitos anos, talvez?! Todos hoje em dia são muito imediatistas e por isso sempre frustrados... Muitas pessoas invejam as outras que batalharam longo  tempo para chegarem onde estão, mas sem buscar construir o mesmo.

Eu tenho e quero ter sempre esta garra, de admirar sem invejar e de lutar para conseguir chegar no mesmo patamar, ou pelo menos um pouco mais próximo daqueles que admiro... Não ficar só no desejo de estar em uma posição diferente, mas trilhar o caminho até ela. Trabalhar, estudar, me esforçar e ao longo do tempo apreciar minha própria evolução.

Isso é viver fora da ilusão, isso é pisar fora da alienação, e colocar um objetivo e uma função para o que se procura na vida. O processo para tudo isso, é a real busca da felicidade: que de hora em hora escapa – porque não está em lugar nenhum  – mas que a gente vislumbra pela paisagem enquanto percorre o caminho do meio.

Caminho do meio: referência ao conceito criado por Buda (Siddhartha Gautama). Seria o caminho para a moderação, afastado dos extremismos da autoindulgência e da automortificação.



Autora: Érica Marina

23 de maio de 2013

Orando sem querer



Aprendi a não pedir nada em oração, porque não sabemos o que é melhor para nós. Isso me disseram, e eu assimilei racionalmente, porque faz sentido. Oro, e agradeço. Tenho tanto a agradecer!

Mas, às vezes, eu torço tanto para que algo dê certo, tão do fundo do meu coração, que eu sei que é uma oração. Como meu coração costuma estar certo, eu deixo... e meu cérebro complementa: seja o que Deus quiser!

Autora: Érica Marina

12 de maio de 2013

Dirigindo a vida na defensiva


Em geral eu me pergunto: "está tudo bem, mas e depois?". E daí surgem as inquietações. Mas agora estou em paz, provavelmente por isso faz um tempo já que não escrevo. (Não existe motivador maior do que os conflitos). Contudo, não estou em paz porque já tenho tudo o que quero, estou em paz porque meus planos de ação estão nos trilhos. É uma paz em movimento. E a execução dos meus planos me fazem ocupar a cabeça com alguma coisa além das minhas ansiedades e expectativas.

Às vezes, você pode estar em um cruzamento semafórico na preferencial e um louco ou distraído atravessar o sinal vermelho e colidir em você, que estava "certo". Mas você pode sempre se certificar se não há nenhum louco antes de prosseguir. Os acidentes podem ser inevitáveis, porém, dizem as estatísticas da direção defensiva, que são apenas 5%.

É interessante observar que o ideal no trânsito é que você faça o seu papel e também o do outro. Não tenho dúvida nenhuma que um pouco de tudo na vida também seja assim. Por mais indigno que seja aquele que não faz o seu papel, é melhor para quem está atento não ser prejudicado por ele.

Eu não sei me contentar com a simples contemplação das coisas como estão. Mas aprendi a não chorar sobre o leite derramado. Em vez disso, cuido do que é meu até o limite do espaço em que o outro não ocupa. Posso talvez acabar invadindo o espaço alheio, mas às vezes a competência de outrem sobra em minhas mãos.

Assim, após alguns anos de amadurecimento, percebi que eu sempre dei graças às minhas próprias antecipações, me favorecendo e me preparando para o que viria depois. É aí que eu encontro minha paz, quando eu levo minha vida na defensiva.

Autora: Érica Marina

31 de março de 2013

Idealismo, semente em extinção

"Se quiser que os seus filhos sejam brilhantes, leia contos de fadas para eles." (Albert Einstein)


Já faz um tempo que a sociedade reprime o idealismo e o romantismo. Alguns acreditam ser falta de desenvolvimento intelectual ou inteligência. Outros pensam ser falta de experiência ou de observação. Mas poderiam todos ter mais fé na vida, no destino e nos finais felizes. Por que não?

Os conservadores têm de ser mesmo pouco criativos, já perspectiva de mundo para eles é como o mundo está. Por outro lado, os jovens podem cair no conformismo depois de alguns anos, mas seu período de criatividade e capacidade de fazer um mundo diferente terá chegado ao fim. A história é escrita, às vezes pelo suor, às vezes pelo sangue, mas sempre antes da aposentadoria. Pois é por isso que salvaria o mundo uma nova geração idealista. É fato que organizações extremamente perigosas já levaram a humanidade a beira de abismos. Mas poderia ser que organizações bem intencionadas elevasse de patamar o que chamamos de humanidade.

E se as pessoas buscassem preencher a vida com amor em vez de distrações? Se começassem a acreditar que o egoísmo delas não as leva ao que é mais importante? E se as pessoas seguissem o conselho de  Gandhi e se esforçassem para ser a mudança que elas querem ver no planeta? E se os pais de hoje criassem os filhos para o mundo em que eles gostariam de viver em vez de criar para o mundo do qual eles lamentam participar?

Como seria se toda uma geração pensasse diferente e tivesse a visão alargada pela criatividade direcionada a um mundo melhor? Se todos pudessem ser gentis? E se a maioria respeitasse as diferenças? E se a educação fosse voltada à inserção social mais do que à competitividade? E se as empresas estivessem mais preocupadas com seus clientes e com seus trabalhadores do que na competitividade com as outras?

Se cada um buscasse entender melhor a si mesmo e aos outros? Se todo mundo compreendesse a grosseria e retribuísse com gentileza? Se as religiões fossem menos sectárias e mais dispostas a receber sem nada em troca? Como seria se existissem lugares que acolhessem as pessoas para falar de Deus sem assaltar carteiras? E se as pessoas pudessem confiar umas nas outras? Se a palavra de alguém fosse mais do que suficiente para a confiança de outrém?

Como seria se cada um pensasse na coletividade antes que em si mesmo... pelo menos algumas vezes? E se, com esse ímpeto de ajudar, algumas se doassem à política? E se a população enxergasse os mal intencionados e nunca mais o colocasse no poder? E se a diplomacia fosse uma conversa olho no olho entre pessoas honestas, sem salamaleques e sinucas de bico? E se o mundo percebesse que não há motivo para guerras?

O que falta para um mundo melhor é o idealismo de maneira maciça. Vamos mostrar aos pequenos o planeta como ele é para poder apontar onde ele deveria mudar, não para que se amoldem a ele. Que nossos filhos, sobrinhos, irmãos, possam ser moralmente melhores. Que possamos desenvolver neles a sensibilidade, a criatividade, a consciência social e altruísta. Que eles não se desvirtuem porque o mundo está desvirtuado. Que esse mundo triste seja apenas passageiro.
Autora: Érica Marina

7 de março de 2013

Em relação à Humanidade


Enquanto eu me contorço no assento sob pretexto de ajeitar a coluna, minha mente passeia por assuntos bastantes entre o toque de duas teclas. Não acharei posição física para aninhar melhor meu desconforto. Estou seguindo dia a dia uma disciplina para adequar meus desajustes ao mundo - tenho que aceitar como ele é? Acho então que deverei buscar uma referência imaginária, idealista ou espiritual, pois este planeta não tem sido muito inspirador.

Em um sábado qualquer, sou admirada ao pedir ao caixa do restaurante que inclua algo que realmente comi e estava ausente da minha conta. Até parece que eu fiz algo além da obrigação. Sigo em frente no meu aprendizado para entender que a ética do não-roubar é mais ampla e se aplica até ao precioso tempo das outras pessoas. Mas depois ouço histórias de indivíduos comuns e totalmente sem necessidades financeiras que roubam o celular cobiçado de colegas de convívio na primeira oportunidade que tiverem. "A ocasião faz o ladrão", que brilhante filosofia!

Aceito o convite de um amigo à sua igreja, mesmo já tendo minha fé convicta e me deixo notar que Deus tem muitos caminhos. Abro mão do meu preconceito para caminhar duas léguas junto ao próximo. Penso então no mundo das guerras santas e já me sinto  envergonhada e diminuída em minha humanidade. O que eu posso fazer pelo Oriente Médio? Porém aí eu percebo que toda a sociedade que me envolve é também extremamente preconceituosa em matéria de religião. Pessoas afrontam as outras religiões (ou qualquer religião) ou descaradamente enaltecem a sua própria em detrimento das outras.

Quando penso que o nível do inaceitável já foi alcançado, parece que sempre haverá um degrau mais abaixo. Costumo acreditar que há uma linha tênue que separa o ético do não ético e que, depois que se a cruza, o ser humano perde totalmente a referência e por isso não haverá mais limites para sua consciência.

Com certeza, vivemos a institucionalização da falta de ética e da hipocrisia. E com isso o politicamente correto  cai como totalmente fora de moda. Aliás, "politicamente correto" talvez não seria o termo que eu queira usar. Minha cidade, meu país, meu mundo têm vivido uma época em que a política é apenas uma realização profissional de uma carreira individual de alguém que só pensa em si e nos seus.

Logo a seguir, uma magnata lançará um livro com o pretexto de ensinar as mulheres a serem mais agressivas e saberem se impor para alcançar o sucesso, pretensiosamente querendo lançar um novo Feminismo. Eu, que muitas vezes fui taxada feminista, quero a materialização de um biombo imediato entre mim e tudo isso. Tenho pavor mortal ao machismo, sim. Como também a este feminismo. E desde quando o ideal de sucesso é agressividade? Esse livro eu não lerei para criticar com mais propriedade. Fica a minha crítica à ideia e minha não compactuação com a sua venda.

E eu buscando o aprimoramento pessoal, que coisa mais demodê! Minhas letras recortadas aqui não conseguem apreender agora como é grande minha vergonha alheia em termos amplos. Eu sou feita da mesma composição de materiais físicos, etéreos e psíquicos do restante da Humanidade.  Como posso me encarar neste espelho?

Já era uma entusiasta de Nelson Mandela e sua biografia. Líder intelectual tão comedido e justo, tão íntegro e consciente, mesmo após 27 anos de encarceramento. Ampliei recentemente meu conhecimento sobre a história da África do Sul no desmantelamento do apartheid e de repente eu gostaria que todos conhecessem a mesma história.  Esse mundo é uma coleção de apartheids, não só racial.

Gostaria que as pessoas pudessem também aprender com Mandela, que a vitória do reprimido não lhe dá direito a uma ditadura diferente. E que as pessoas entendessem o que passa na cabeça do inimigo para tentar um acordo de paz. Mesmo em situações tão sufocantes, violentas, desesperadoras e de longos anos de duração. E que todos fossem mais a fundo para perceber que mesmo com um líder tão extraordinário, não basta só a ação de um único ser humano.

Tenho o desespero de desejar muito mais humanidade à Humanidade, mas sou apenas um pequeno ponto em movimento com mais uma opinião.

Autora: Érica Marina

7 de fevereiro de 2013

Existo em profusão


(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Alberto Caeiro



Se existo porque penso, eu existo em profusão. Mordi logo cedo o fruto proibido da árvore do pensamento. Queria eu também comer chocolate em meditação, sem observar a embalagem, sem querer saber de onde veio, sem me perguntar mais nada. Porém, o esvaziar a mente é um exercício difícil para o meu viver cotidiano: só consigo não pensar em nada ao tentar efetivamente fazer nada e pensar em não pensar... E esse começo, por si só, é atrapalhado!

Penso mil coisas sobre tudo e sofro um pouco mais, porque indago sempre sobre a vida em vez de simplesmente observar. Mas... isso é tão essencial para mim! É tão fundamental que eu pense - não há retorno à posição de ser alheio à metafísica uma vez mordido o fruto. Por isso escrevo sempre, para canalizar minhas divagações e exorcizar minhas inquietações. Faço de tudo para esvaziar a mente, mas é um processo sem fim de limpeza.

Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa que tenta abstrair-se do pensamento, acaba sempre se pegando em contradição. Talvez porque seja em si um personagem de vivência ou talvez porque se contamine com a fonte inicial, Pessoa, tão experiente em destrinchar sensações. O pensamento é mesmo um vício impregnante.

Autora: Érica Marina

7 de janeiro de 2013

Mais uma oportunidade de recomeço


Somos pobres seres humanos querendo coisas simples e complicando tudo. Estamos a todo momento buscando dar o próximo passo, apressados, sem nos permitir dançar. Mas olhamos para trás e queremos ter vivido mais intensamente. Focamos nos aspectos menos importantes da vida, e nos sobra preguiça para o que realmente importa. Jogamos jogos de amor, mas não sabemos lidar com eles: só queremos o amor em si. Sofremos com expectativas, porém não agradecemos a realidade. Brigamos à toa e deixamos o desentendimento ser emoldurado pelo orgulho. Desejamos o perdão, mas não sabemos esquecer. Queremos ser melhores, mas insistimos nas nossas manias.

Falta o ímpeto de sair do sofá para irmos onde realmente queremos estar. Falta a coragem para ser sincero quando a honestidade nos acrescentaria. Falta o entendimento de que o que perdemos na vida ajuda a construir o que nos orgulha. Falta a vontade real de ser quem nós achamos que deveríamos ser... ou falta a pacificação de cada um nós mesmos com seu próprio eu.

Neste novo ano quero verdadeiramente a paz, intensamente o amor e uma nova chance para mim. Para isso, estou calculando meus passos, colocando sobre mim a responsabilidade, mas tirando algum peso dos ombros. Levarei o que for preciso. Se for pesado, mas importante, eu aguento mais um pouco. Se for pesado e desimportante, doarei a quem interessa.

Autora: Érica Marina


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