7 de fevereiro de 2013

Existo em profusão


(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Alberto Caeiro



Se existo porque penso, eu existo em profusão. Mordi logo cedo o fruto proibido da árvore do pensamento. Queria eu também comer chocolate em meditação, sem observar a embalagem, sem querer saber de onde veio, sem me perguntar mais nada. Porém, o esvaziar a mente é um exercício difícil para o meu viver cotidiano: só consigo não pensar em nada ao tentar efetivamente fazer nada e pensar em não pensar... E esse começo, por si só, é atrapalhado!

Penso mil coisas sobre tudo e sofro um pouco mais, porque indago sempre sobre a vida em vez de simplesmente observar. Mas... isso é tão essencial para mim! É tão fundamental que eu pense - não há retorno à posição de ser alheio à metafísica uma vez mordido o fruto. Por isso escrevo sempre, para canalizar minhas divagações e exorcizar minhas inquietações. Faço de tudo para esvaziar a mente, mas é um processo sem fim de limpeza.

Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa que tenta abstrair-se do pensamento, acaba sempre se pegando em contradição. Talvez porque seja em si um personagem de vivência ou talvez porque se contamine com a fonte inicial, Pessoa, tão experiente em destrinchar sensações. O pensamento é mesmo um vício impregnante.

Autora: Érica Marina
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Ocorreu um erro neste gadget