30 de outubro de 2013

Meu apego ao livro físico


Disse um sábio uma vez, que o amor não resiste a explicações. Mas relembrar o primeiro encontro é sempre um motivo de encantamento. Sou da época em que não era preciso me referir ao livro físico acrescentando um adjetivo: um livro era um livro. Após adquirir o domínio difícil das sílabas e das palavras, na infância alfabetizada eu lia um livro por dia, quando os livros eram assim um apanhado estreito de papéis.

Se  o dever da escola se estendia, ele me atrapalhava a leitura. "Primeiro o dever, depois a diversão", me reprimiam os adultos deixando o livro para depois. Após ler tudo o que havia para minha idade, a bibliotecária me permitia avançar a classificação... o que que tem?! Lógico que no fim do dia eu ia brincar na rua de brincadeiras que hoje as crianças não conhecem... A imaginação exercitada deixava tudo mais divertido.

Quando alguém me fala que o livro será descartado, tenho duas linhas de raciocínios: uma mais centrada e outra mais sentimental. Elaboro comigo que a televisão não substituiu o rádio e, portanto, uma nova tecnologia não precisa substituir a anterior... e outros argumentos raciocinados nesse esquema.

Mas, de verdade, quando me dizem que o tablet e os e-books, com sua estrangeirisse imposta desde o nome irá substituir o livro físico, eu penso: esse povo está maluco...! Eu leio, sim, em PDF, no meu tablet, quando não há outra opção e o assunto vence o incômodo da luz emitente contra meus olhos e do toque artificial para virar páginas.

A primeira coisa que penso, de fato, é: esse povo que diz que o virtual substituirá os tradicionais livros não sabe o que é ler! Não conhece o kama sutra da leitura: em que a gente alterna cadeira, poltrona, cama e sofá, muda de posição diversas vezes, mas não consegue largar o livro! Esse deve ser o mesmo povo que não lê mais de vinte páginas por interesse próprio!...

Ah, não me entendam mal, me desculpem o mal juízo! Esse amor é caso sério e para a vida toda. Quando vejo a estatística de venda de e-books, eu compreendo que estou enganada. E quando alguém me manda um livro grande para ler em PDF, eu tenho saudades da minha professora de Sociologia na faculdade: que reunia um calhamaço de textos para xerox, sobre o qual nos debruçaríamos para abrirmos um pouco mais este nosso universo interno.

Eu faço uso intenso da internet e dos meios de comunicação eletrônicos, com certeza. Apesar da opinião retrógrada, sou pró-informatização. E escrevo meu texto aqui para disponibilizar de maneira fantástica a quem quer que seja. Mas... eu gostaria de reunir esses escritos em um livro um dia. No fim deixo a pretensão de lado, pois seria considerar que este apanhado de textos sem coesão seriam de alguma valia.

Alguns livros são para ler e reler em espírito de meditação. São livros difíceis e surpreendentes, que só se entende melhor após algumas releituras. Eu fico impressionada com a capacidade intelectual de quem pôde escrevê-los. Às vezes, penso que essa intelectualidade é uma técnica multicentenária a ser perdida... Se for, eu serei provavelmente uma colecionadora dessa raridade.

Autora: Érica Marina
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