10 de dezembro de 2013

Um bando de braços curtos

Desenho: Fabrício Moraes

Chamamos de "braço curto", coloquialmente, aquelas pessoas que não alcançam nada que não esteja bem próximo, que não fazem nenhum esforço de ultrapassar a zona de conforto. Lidam com aquilo que está em suas mãos e não fazem mais do que isso. Infelizmente, eu me sinto cercada de pessoas assim e sinto também uma tendência de piora.

Não é de hoje que o funcionalismo público brasileiro tem a fama de "braço curto". Talvez porque aqueles que buscaram o emprego público ao longo das últimas décadas estavam em busca conforto do bom salário com estabilidade e sem grande esforço. De qualquer forma, pelo salário e pela estabilidade, eu vejo a concorrência em concursos públicos crescer e de certa forma acaba selecionando candidatos mais bem empenhados. Não sei se no longo prazo esse empenho irá decair  por acomodação ou se contaremos com um pouco mais de eficiência no funcionalismo. É esperar para observar os efeitos correlacionados dos dois movimentos.

Por outro lado, na iniciativa privada, o fenômeno do bracinho curto está dominando a maioria das empresas. Sabemos todos que o "custo Brasil" é caro, então as empresas têm pago tão pouco quanto puderem. E isso é tão geral, que a mão-de-obra não tem escapatória. Daí surgem dois desdobramentos na contratação. O primeiro é contratar pessoas com capacidade inferior ao que o bom desempenho do cargo exige. O segundo é contratar outras que até têm essa competência, mas logo perceberão que o trabalho e as dores de cabeça que têm (para não dizer perda de saúde no geral) não estão pagando o salário que ganham.

Aí, para aliviar um pouco do excesso da carga de trabalho, até mesmo os competentes se restringem. Ou porque não dariam conta de desfiar todos os problemas que encaram no dia-a-dia, ou simplesmente porque ganham muito mal para isso. Falo também por experiência própria, porque tendo competência e preocupação em ajudar e resolver o problema dos outros, não dei conta do estresse e pedi demissão. Deixei a empresa como outras pessoas competentes deixarão. Ou então aprenderão com os mais velhos de casa que o problema não é deles.

O grande drama é que no nosso cotidiano de pessoa física, estamos o tempo todo em contato com essas empresas e instituições. Temos  um monte de atividades que são terceirizadas e dependemos dessas pessoas incompetentes ou desmotivadas. 

Quando não, as grandes empresas colocam o Call Center como única forma de resolução dos problemas que elas mesmas nos criaram. Os centros de telefonia, na minha opinião, simplesmente não deveriam existir. Lá, você fala com alguém que não tem alçada para resolver o seu problema e dará uma informação que consta em sistema que você já tem ou é incorreta. E o pior: esse atendente nunca mais irá falar com você. Isso o desobriga de ser proativo ou realmente procurar lhe ajudar.

A solução para o cliente desamparado é registrar de reclamações de alguma forma e esperar ser ouvido. Porém, muitas vezes, nem mesmo a Ouvidoria da empresa ou o órgão regulador competente irão resolver alguma coisa. Já aconteceu comigo que depois várias reclamações em uma empresa, passei ao órgão regulador. Este, após o prazo solicitado me informou que não obteve resposta e perguntou se eu queria "reenviar a reclamação"! Para quem recorrer nesse caso? O problema é que a própria Justiça em si está assentada como todo o resto da estrutura  do país sobre um capital humano de bracinhos curtos.

No fim, cada um de nós brasileiros estamos tendo transtornos absurdos para conseguir simples serviços e esses mesmos brasileiros estressados vão se sentar na cadeira de trabalho, sem ânimo de resolver outros problemas além dos seus. É um trágico ciclo vicioso. Juntamente com a corrupção e a desonestidade, é mais uma mazela intrínseca da nossa sociedade que não vejo ponto de partida para resolução.

Particularmente, o que cada um pode fazer para ser uma gota d'água de proatividade no mar de problemas, é buscar ser um profissional competente onde quer que esteja. Fazer seu trabalho direito, ou abandoná-lo em busca de outro que realize melhor. Existe, sim, saída melhor para a empresa que lhe explora e lhe dá mais problemas do que você pode resolver. Tenha um plano de ação, vá estudar, vá fazer o que goste. Mas enquanto estiver lá, não continue na malemolência pois estará prejudicando muitos outros.

Estou em um nível em que toda vez que sou bem atendida tenho uma grande surpresa e enfaticamente elogio o atendimento a fim de dar minha contribuição para que a outra pessoa continue nessa linha. Se todos trabalhassem corretamente, com certeza sobraria mais tempo para crescermos como nação.

Autora: Érica Marina

Um comentário:

  1. Érica Marina ... excelente matéria!
    Não discordo 1 letra do que disse.
    Bjos.

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Ocorreu um erro neste gadget